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Para lá da banalidade do quotidiano

"A Mulher que Fugiu" valeu a Hong Sang-soo um Urso de Prata no Festival de Berlim — a sua estreia ocorre em paralelo com a exibição de mais três títulos do cineasta da Coreia do Sul.

Para lá da banalidade do quotidiano
Sae-Byuk Kim e Kim Min-hee: as relações humanas em subtil tom dramático
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É caso para dizer: o cinema da Coreia do Sul não se esgota no impacto de "Parasitas" — vencedor do Festival de Cannes e dos Óscares referentes a 2019 — nem na obra do seu realizador, Bong Joon Ho. Nada contra esse filme, entenda-se: além do mais, nomeadamente em Hollywood, o seu sucesso abriu importantes formas de divulgação com efeitos positivos no chamado cinema internacional. Seja como for, a questão, agora, é diferente. Ou seja, a estreia de "A Mulher que Fugiu", título que valeu a outro autor coreano, Hong Sang-soo, o Urso de Prata (melhor realização) no Festival de Berlim de 2020 (o último grande certame realizado antes da pandemia).

De Hong Sang-soo, tinhamos visto nas salas portuguesas, por exemplo, "O Dia Seguinte" (2017), exercício de observação do quotidiano, tanto mais envolvente quanto sabia expor as peculiaridades de um espaço profissional de trabalho. Algo de semelhante se poderá dizer a propósito do novo filme, construído a partir de uma metódica explanação de três momentos protagonizadas pela mesma mulher, Gam-hee, interpretada por Kim Min-hee, presença fetiche na obra de Hong Sang-soo.


Em termos esquemáticos, esta é a crónica dos encontros de Gam-hee com três mulheres que, por diversas razões, estão envolvidas na sua história pessoal. Às singularidades dessas relações soma-se o subtil sistema de ecos que o filme vai instalando — por exemplo, o facto de Gam-hee repetir que, em cinco anos de casamento, nunca passou um dia separada do marido; ou ainda a pontuação da acção por algum ecrã (caseiro ou de uma sala de cinema).

Estamos perante um cinema subtilmente dramático cuja sedução começa no facto de Hong Sang-soo não ceder aos lugares-comuns "psicológicos" que tantas vezes dominam a abordagem da (ambígua) banalidade do quotidiano. Razão de sobra para recordarmos que "A Mulher que Fugiu" surge enquadrada pela exibição de mais três títulos da sua filmografia: "Mulher na Praia" (2006), "O Filme de Oki" (2010) e "O Dia em Que Ele Chega" (2011).

Crítica de João Lopes
publicado 22:28 - 07 janeiro '21

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