Para não esquecermos Albert Finney
"Tom Jones" (1963): Albert Finney obteve aqui a primeira de cinco nomeações para os Oscars

Memória  

Para não esquecermos Albert Finney

Cinco vezes nomeado para Oscars de interpretação, foi um dos actores marcantes da história do cinema (britânico e americano) das últimas seis décadas — Albert Finney morreu aos 82 anos.

Há qualquer coisa de chocante no facto de a agitação mediática global em que vive o nosso planeta ter dado tão pouca atenção ao falecimento de Albert Finney — no dia 7 de Fevereiro, em Londres, contava 82 anos —, afinal um dos maiores actores britânicos das últimas seis décadas [filmografia no BFI].

Formado no teatro, como muitos outros companheiros de geração, Finney possui uma filmografia recheada de composições tanto mais desafiantes quando se desenvolvem, ponto por ponto, contra as convenções dos próprios géneros em que se inserem — até ao seu derradeiro papel em "007 - Skyfall".

Eis algumas memórias incontornáveis da sua carreira:

* TOM JONES (1963) - delirante adaptação do romance de Henry Fielding num tom histórico de saboroso anti-historicismo — com realização de Tony Richardson, protagonizou um dos grandes triunfos da produção britânica em Hollywood, arrebatando quatro Oscars (incluindo o de melhor filme).

* UM CRIME NO EXPRESSO DO ORIENTE (1974) - Por certo uma das melhores adaptações de Agatha Christie, meticulosamente dirigida pelo grande Sidney Lumet — Finney compunha um inesquecível Hercule Poirot.


* O COMPANHEIRO (1983) - Baseado numa peça de Ronald Harwood, este é o retrato íntimo de um velho actor inseguro (Finney) e do seu fiel assistente (Tom Courtenay) — um festival de representação dirigido com pudico rigor clássico por Peter Yates.

* DEBAIXO DO VULCÃO (1984) - Um projecto "impossível": John Huston adapta o romance de Malcolm Lowry centrado na personagem de Geoffrey Firmin, um cônsul britânico no México à deriva no seu alcoolismo — uma tragédia filmada com mão de mestre; no papel de Firmin, Finney desafia o próprio silêncio insidioso da morte.

* ERIN BROCKOVICH (2000) - a saga de uma mulher empenhada na denúncia de uma companhia poluidora, filmada por Steven Soderbergh à boa maneira clássica do "drama social": deu um Oscar a Julia Roberts, no papel principal; Finney surgia, impecável, na personagem do advogado que a contratava.

Estes cinco títulos valeram a Finney outras tantas nomeações para Oscars de interpretação: os quatro primeiros como actor principal, o último como secundário — nunca ganhou. 

A sua carreira vai desde os momentos de afirmação da "nova vaga" britânica, por exemplo com "Sábado à Noite, Domingo de Manhã" (1960), de Karel Reisz, até composições exemplares em "O Grande Peixe" (2003), de Tim Burton, ou "Antes que o Diabo Saiba que Morreste" (2007), título final da filmografia de Sidney Lumet.

Vimo-lo também em "Caminho para Dois" (1967), contracenando com Audrey Hepburn sob a direcção de Stanley Donen, "História de Gangsters" (1990), de Joel e Ethan Coen, ou "Traffic - Ninguém Sai Ileso" (2000), de Steven Soderbergh.

A não esquecer que, em 1968, Finney realizou "Charlie Bubbles" (título português: "Um Homem e a sua História"), subtil e amargo melodrama em que ele próprio contracenava com uma admiravel estreante no cinema chamada Liza Minnelli.

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publicado 23:06 - 09 fevereiro '19

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