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Pinóquio, do realismo à fantasia

A história clássica de Carlo Collodi tem mais uma versão: Matteo Garrone, o realizador de "Gomorra" e "Dogman", encena um "Pinóquio" em que o realismo dos cenários se combina com os artifícios do espectáculo.

Pinóquio, do realismo à fantasia
Fedrico Ielapi interpreta o Pinóquio de Matteo Garrone: corpos e marionetas
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 Pinóquio, do realismo à fantasia
Pinóquio Gepetto é um velho carpinteiro que cria uma marioneta e vê algo mágico acontecer – a marioneta ganha vida, começa a falar, consegue andar, comer e correr como qualquer criança. Geppetto dá-lhe o nome de Pinóquio e cria-o como sendo seu filho. Mas Pinóquio tem dificuldades em comportar-se. Facilmente desencaminhado, anda de desventura em desventura sendo enganado, raptado e perseguido por ladrões, ...

Atravessamos um tempo de muitas crises narrativas... De tal modo que a aposta na recuperação dos clássicos (cinematográficos ou literários) vai marcando as mais diversas áreas de produção. Face ao "Pinóquio" agora proposto pelo italiano Matteo Garrone — trata-se, de facto, de uma produção de 2019 distinguida com cinco prémios David di Donatello —, o menos que se pode dizer é que se assume como um projecto original, alheio a qualquer imitação de anteriores adaptações do clássico de Carlo Collodi.

Não estamos perante uma longa-metragem de animação, como a hiper-clássica animação de Walt Disney com data de 1940. E não se repete a dimensão feérica da versão que, também no interior da produção italiana, Roberto Benigni protagonizou e dirigiu em 2002 — com a particularidade curiosa de Benigni reaparecer como intérprete, mas agora na personagem de Gepetto, o mestre carpinteiro que cria o bonequinho de madeira que vai ganhar vida própria.

Garrone, vale a pena recordá-lo, é também autor de alguns dos dramas mais intensos gerados pelo cinema italiano nas últimas décadas, incluindo esse retrato íntimo da Mafia napolitana que é "Gomorra" (2008), ou ainda "Dogman" (2018), um amargo conto moral dos subúrbios. Dir-se-ia que o realismo cru de alguns dos seus trabalhos passa para "Pinóquio" através de um cuidado labor de cenografia — o seu Pinóquio pertence a uma Itália rural, empobrecida e, ao mesmo tempo, aberta à esperança da fantasia e do fantástico.

A concepção da figura de Pinóquio é especialmente feliz, combinando a fisicalidade do actor (Federico Ielapi) com um delicado trabalho de próteses, de tal modo que a "pele" de madeira (também das outras marionetas que pontuam uma cena fundamental) coexiste com a espontaneidade e alegria dos seus movimentos. Em resumo: a revisitação dos clássicos é uma possibilidade sempre em aberto, recriando-os para novas gerações de espectadores.

Crítica de João Lopes
publicado 22:00 - 07 novembro '20

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