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A Polónia a preto e branco

Premiado em Cannes, "Guerra Fria", de Pawel Pawlikowski, é um dos mais importantes exemplos da mais recente produção da cinematografia polaca — uma evocação subtil de tempos de grande tensão entre o Ocidente e o Bloco de Leste.

A Polónia a preto e branco
Tomasz Kot e Joanna Kulig: dois notáveis actores para um belo fresco histórico
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 A Polónia a preto e branco
Cold War - Guerra Fria Cold War é uma impetuosa história de amor entre duas pessoas de diferentes origens e temperamentos, que são fatalmente incompatíveis, mas que estão destinadas a estar juntas. Tendo como pano de fundo a Guerra Fria nos anos 50 na Polónia, Berlim, Jugoslávia e Paris, o filme retrata uma história de amor impossível em tempos impossíveis.

Foi você que disse Polónia?... É verdade. Só mesmo por distracção, ou vulgar altivez, se poderá ignorar a presença da produção polaca na história moderna do cinema europeu. Afinal de contas, entre os autores gerados pela Nova Vaga polaca está Roman Polanski. Isto sem esquecer os nomes emblemáticos de Andrzej Wajda, Krzysztof Kieslowski ou, mais recentemente, Pawel Pawlikowski (com o seu magnífico "Ida", vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro referente a 2013).

Pawlikowski, justamente, reaparece com um título já consagrado em Cannes, no passado mês de Maio (prémio de realização): "Guerra Fria" começa por ser aquilo que o seu título explicita. Que é como quem diz: um fresco histórico sobre um período de crescente tensão entre o Bloco de Leste e o Ocidente, tensão vivida de modo muito particular, entre a indiferença e o pânico, pelo cidadão comum.

No centro dos acontecimentos estão duas personagens que se cruzam no mundo da música e, em particular, nos eventos oficiais, de cariz propagandístico, com os agrupamentos da juventude comunista: Zula e Wiktor surgem, assim, como símbolos de uma sociedade conduzida pela frágil ilusão de uma unidade mítica e redentora.

A complexidade, desde logo afectiva (mas também ideológica e sexual), das relações entre Zula e Wiktor é tanto mais intensa quanto Pawlikowski volta a revelar-se um exemplar director de actores: Joanna Kulig e Tomasz Kot são brilhantes na caracterização de dois seres embrenhados nos ziguezagues de um tempo de muitas incertezas e ambiguidades.

Notavelmente fotografado a preto e branco (tal como "Ida"), "Guerra Fria" não é, por isso, um objecto nostálgico ou formalista. A fotografia surge, aqui, como elemento visceral de uma época que, em muitos aspectos, se viu, representou e imaginou a preto e branco. Aliás, importa combater o preconceito segundo o qual a "cor" é o estado natural do cinema... Em boa verdade, uma boa metade da história dos filmes existe a preto e branco.

Crítica de João Lopes
publicado 02:18 - 24 setembro '18

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