Quando a caricatura não basta
Léa Seydoux na personagem de France Moeurs: personagens à deriva...

CANNES 2021  

Quando a caricatura não basta

Bruno Dumont tem consciência dos efeitos perversos de certos modelos da fama televisiva; o certo é que ao abordar os seus mecanismos, no filme "France", fica-se por um simplismo algo demagógico.

Trailer/Cartaz/Sinopse:
 Quando a caricatura não basta
France Paris, nos dias de hoje. France de Meurs é uma jornalista famosa que corre entre a televisão, uma guerra distante e a azáfama da sua agitada vida familiar. O seu mundo frenético e de grande visibilidade é virado do avesso após um acidente de viação em que fere um peão. Esta inesperada irrupção da realidade põe tudo em causa. Enquanto França tenta abrandar e recuar para uma simples vida anónima, a ...

Face ao filme "France", não podíamos estar mais de acordo com a indignação do seu realizador Bruno Dumont. A personagem de France de Moeurs (cujo simbolismo convoca, inevitavelmente, o seu próprio país, França) é uma vedeta mimada de notícias de um canal fictício, nessa medida servindo, de facto, de sintoma dos vícios correntes de alguma informação televisiva — para lá dos truques da fama, alimentados por um "social" profundamente desumanizado, o seu labor é vivido menos como uma observação de factos e mais como uma encenação de notícias...

E, no entanto, "France", para lá do seu desagradável cinismo, é no plano cinematográfico um dos objectos menos interessantes da competição do 74.º Festival de Cannes. Dir-se-ia que se trata apenas de acumular sugestões mecânicas, repetitivas e demagógicas sobre o espaço televisivo, sem outra perspectiva que não seja a banal proliferação de caricaturas grosseiras.
O filme dispersa-se mesmo numa variedade gratuita de registos, reveladora da inconsistência do seu plano narrativo. Passamos, assim, da tragédia em suspenso para momentos de humor (?) que dispensam a caracterização minimamente coerente de cada personagem. Como se bastasse ridicularizar a televisão para compreender e denunciar os elementos e efeitos das suas linguagens.

Desastre habitual neste género de projectos: o massacre dos actores, perdidos no meio da confusão, sem saberem como sustentar as suas "pobres" personagens — Léa Seydoux, na figura central, é a mais prejudicada, apesar (ou precisamente por causa) do seu esforçado trabalho de composição.

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publicado 01:43 - 17 julho '21

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