Estreias  

Quando o ténis é uma epopeia

Eis uma capítulo épico da história do ténis: a rivalidade entre o sueco Björn Borg e o americano John McEnroe — o filme assinado por Janus Metz consegue evocá-la sem se submeter aos padrões televisivos.

Quando o ténis é uma epopeia
Shia Labeouf e Sverrir Gudnason — cada um dos tenistas era o fantasma do outro
Crítica de
Subscrição das suas críticas
135
Trailer/Cartaz/Sinopse:
 Quando o ténis é uma epopeia
Borg vs. McEnroe Wimbledon, 1980. O verão mais chuvoso das últimas décadas. O mundo aguarda pelo momento em que verá Björn Borg, o número um mundial, conquistar o quinto título em Wimbledon. Poucos conhecem o drama que se desenrola nos bastidores: com apenas 24 anos, Borg está no limite. Exausto, desgastado e repleto de ansiedade. O seu adversário é John McEnroe, 20 anos, decidido a substituir o seu ...

Convenhamos que, em tempos de proliferação de imagens televisivas de muitos desportos, não seria fácil fazer um filme sobre o ténis. De facto, a nossa própria percepção dos "courts" passou a estar marcada pelas formas narrativas que a televisão foi criando para dar a ver esse mágico vai-vém da bola entre dois homens com raquetas. O sucesso de "Borg vs. McEnroe" começa, assim, no simples facto de não querer imitar a televisão.

Vemos, assim, o jogo através de uma lógica visual — e, sobretudo, de montagem — que nos propõe novas e interessantes perspectivas (incluindo alguns magníficos planos obtidos na vertical, com as linhas do "court" paralelas às próprias margens do ecrã). Em qualquer caso, não reduzamos a questão a um conjunto de opções meramente técnicas: em "Borg vs. McEnroe", o essencial, é a dimensão humana do confronto (confronto, entenda-se, é o contrário do conflito que triunfou no espaço futebolístico).

A rivalidade entre o sueco Björn Borg e o americano John McEnroe entrou para a história mitológica do ténis, em especial por causa do Torneio de Wimbledon de 1980, precisamente o núcleo dramático do filme [ver video oficial]. Muito para além da simples afirmação de qualidade de jogo, os dois homens protagonizaram uma epopeia em que cada um estava, por assim dizer, condenado a reconhecer a excelência do outro — mais do que sobre o jogo, o filme é sobre essa relação, de uma só vez desportiva e fantasmática.


A realização de Janus Metz consegue a proeza de manter o filme numa intensa dimensão psicológica, em particular através de um argumento que não depende da "revelação" final do resultado (por certo conhecido de muitos espectadores). Para essa peculiar pulsação emocional, o trabalho dos dois actores principais revela-se decisivo: Sverrir Gudnason é, pura e simplesmente, impecável na caracterização de Borg como um vulcão contido; quanto a Shia LaBeouf, como McEnroe, digamos apenas que merece que o admiremos para além de algumas escolhas erradas que têm pontuado a sua carreira.

Crítica de João Lopes
publicado 22:17 - 06 outubro '17

Recomendamos: Veja mais Críticas de João Lopes