Que viva Antonioni!
Michelangelo Antonioni e Monica Vitti — rodagem de "O Deserto Vermelho" (1964)

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Que viva Antonioni!

A obra admirável de Michelangelo Antonioni (1912-2007) está de volta às salas portuguesas: sete filmes em cópias digitais restauradas definem um dos grandes acontecimentos deste ano cinematográfico.

Foi em 1985 que a Cinemateca Portuguesa dedicou uma retrospectiva a Michelangelo Antonioni que, aliás, contou com a presença do mestre italiano (falecido em 2007, contava 94 anos). Mais de três décadas depois, o seu nome volta a dominar a actualidade cinematográfica no nosso país.

Motivo: um magnífico ciclo de sete longas-metragens, em cópias digitais restauradas, organizado pela Leopardo Filmes. Em boa verdade, estamos perante alguns dos títulos decisivos — em Itália e a nível europeu — na definição de um modernidade cinematográfica que continua a seduzir-nos, dir-se-ia uma perene vanguarda.

Cronologicamente, o ciclo vai desde o período em que Antonioni e outros cineastas italianos se afirmavam para lá da herança neo-realista, desembocando na consagração em Cannes, em 1982, com "Identificação de uma Mulher" — eis o panorama:

* ESCÂNDALO DE AMOR (1950) — Num registo herdado das matrizes clássicas do melodrama, com Lucia Bosè e Massimo Girotti, Antonioni começa a definir as linhas de força do seu cepticismo existencial: o romantismo dá lugar a um desencanto social vivido em dilacerado intimismo.

* O GRITO (1957) — Filme charneira, por excelência: o par Steve Cochran/Alida Valli vive uma crise de sentimentos e silêncios que reflecte, ponto por ponto, o esvaziamento simbólico de uma Itália interior — a atenção aos espaços e edifícios começa a revelar a dimensão "arquitectónica" do cinema de Antonioni.

* A AVENTURA (1960) — Título de abertura de uma "trilogia a preto e branco" (sempre com Monica Vitti) que revolucionou todos as componentes clássicas dos conceitos de personagem e narrativa — da caracterização psicológica à inserção social, sem esquecer, claro, a dialéctica palavra/silêncio.


* A NOITE (1961) — Dir-se-ia que o retrato de uma sociedade de "bem estar" que, pela mesma altura, Federico Fellini filmava como um pesadelo à beira do burlesco ("La Dolce Vita"), adquire, com Antonioni, a dimensão de uma tragédia suspensa: a solidão parece intensificar-se através da proximidade do outro.

* O ECLISPE (1962) — As deambulações de Monica Vitti e Alain Delon através das novas zonas urbanas de Roma parecem pertencer a uma espécie de amarga e envolvente "ficção científica". Dito de outro modo: a ideologia do consumo e do "progresso" social avança em paralelo com o esvaziamento do factor humano.

* O DESERTO VERMELHO (1964) — Estreando-se com a película a cores — com a colaboração preciosa do director de fotografia Carlo Di Palma —, Antonioni encena o exterior de um mundo de fábricas e fumos como eco simbólico de um interior de crescente decomposição das relações. O amor não parece possível, tornou-se um fantasma do nevoeiro.

* IDENTIFICAÇÃO DE UMA MULHER (1982) — Mesmo não sendo auto-biográfico, o cineasta interpretado por Tomas Milian funciona como um eco insólito, discretamente irónico, da missão cinematográfica de apostar em lidar com a infinita complexidade do mundo. No ponto de fuga do feminino, Daniela Silverio "reencarna" o enigma de Monica Vitti.

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publicado 20:01 - 26 agosto '21

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