ROCHA, Glauber
Glauber Rocha sob o signo de Scorsese [foto: Paula Gaitán]

DVD Memória  

ROCHA, Glauber

Na história da produção cinematográfica do Brasil, Glauber Rocha ocupa um lugar fundamental — falecido em 1981, contava apenas 42 anos, os seus filmes continuam a ecoar no nosso presente.

Encruzilhadas brasileiras: na semana em que as salas portuguesas acolheram "Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos", filme de João Salaviza e Renée Nader Messora sobre os índios Krahô que ganhou um prémio em Cannes, e "My Name Is Now", um retrato íntimo da cantora Elza Soares com realização de Elizabete Martins Campos, assinalou-se uma efeméride muito especial — Glauber Rocha teria completado 80 anos no dia 14 de Março de 2019.

A primeira longa-metragem de Glauber Rocha, "Barravento", tem data de 1962. Nela se retrata uma comunidade de pescadores do litoral da Bahia cujos antepassados são escravos que foram levados de África para o continente americano. Aí encontramos um fundamental cruzamento temático e simbólico entre a crueza da história e o apelo das lendas e da magia. Dois anos mais tarde, em "Deus e o Diabo na Terra do Sol", surgiu a personagem mítica de António das Mortes.

Interpretado por Maurício do Valle, António das Mortes é o matador de cangaceiros que, cerca de duas décadas mais tarde na sua história atribulada, irá compreender que o Brasil já não é o mesmo em que ele foi um herói — as condições de vida do povo são ainda mais drásticas e ele vai repensar os seus valores. Na filmografia de Glauber Rocha, essa é uma história contada em 1969 e o filme chama-se, precisamente, "António das Mortes".


O cineasta brasileiro viria a falecer em 1981, contava apenas 42 anos, tendo passado por Portugal, no pós-25 de Abril, onde participou no filme colectivo "As Armas e o Povo". O seu derradeiro filme chama-se "A Idade da Terra" e teve estreia mundial em Veneza, em 1980 — numa entrevista com Luís Fernando Silva Pinto, Glauber definia o seu trabalho com um misto de ironia e didactismo.


Descobrir agora os filmes de Glauber Rocha é encontrar as memórias de um Brasil do século XX que, paradoxalmente ou não, continua a ecoar de forma perturbante no nosso presente — um Brasil à imagem das músicas de Heitor Villa-Lobos que ele usou no seu cinema, triste e alegre, transparente e poético.

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publicado 18:00 - 25 abril '19

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