Estreias  

Realismo & fantasia

"A Ganha-Pão", produção de raiz irlandesa, propõe um desafio, no mínimo, pouco comum: trata-se de evocar a ditadura taliban, no Afeganistão, através dos desenhos animados.

Realismo & fantasia
A história de Parvana tem tanto de crónica familiar como de parábola política
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São muitas, e sempre muito complexas, as razões que podem ajudar a explicar o atraso de algumas estreias no mercado português. E escusado será lembrar que apontá-las não significa qualquer menorização dos filmes — acontece que, por vezes, esse atraso pode prejudicar a própria performance comercial dos filmes ("bons" ou "maus", não é isso que está em causa), quanto mais não seja por causa dos efeitos da informação acelerada que nos circunda.

Temos, assim, o lançamento de "A Ganha-Pão", desenho animado que teve a sua estreia mundial há dois anos, no Festival de Toronto. Nos meses seguintes, o seu impacto no mercado americano acabou por lhe trazer uma nomeação para o Oscar de melhor longa-metragem de animação de 2017 (que não ganhou). As suas singularidades começam no facto de se tratar, não de uma fábula infantil mais ou menos abstracta, mas da evocação de uma conjuntura social e política eminentemente trágica.


Com chancela dos estúdios irlandeses de animação Cartoon Salon, esta é uma realização de Nora Twomey que evoca o Afeganistão sob o jugo dos taliban e, em especial, a sua violenta marginalização das mulheres. A personagem central, Parvana, é uma menina de 11 anos compelida a enfrentar uma situação dramática: depois de o pai ter sido preso na sequência de uma discussão nas ruas, é ela que deve garantir as compras de comida para a família. Como? Uma vez que a sua condição feminina gera imediatas atitudes de perseguição, corta o cabelo e disfarça-se de rapaz...

Angelina Jolie foi fundamental na montagem deste projecto (o seu nome figura no genérico na condição de produtora executiva) e tendo em conta o âmbito das suas actividades humanitárias compreendemos o seu empenho na concretização de "A Ganha-Pão". Estamos, afinal, perante uma crónica familiar que vai adquirindo contornos de parábola política sobre um contexto ditatorial. No limite, o artifício dos desenhos está, paradoxalmente, ao serviço de uma pulsação realista.

Tal realismo é tanto mais eficaz quanto surge em didáctica articulação com uma dimensão inequivocamente fantasista. Assim, a odisseia de Parvana acontece em paralelo com os contos tradicionais que ela, a irmã mais velha e a mãe contam ao irmmão mais novo — sobreviver é também defender o seu património narrativo.

Crítica de João Lopes actualizado às 00:57 - 06 setembro '19
publicado 00:53 - 06 setembro '19

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