Realismo popou a vida de Poppy
Sally Hawkins, a Poppy de Mike Leigh: vejam como eu sou feliz

Cinema EuropeuMais Cinema  

Realismo pop
ou a vida de Poppy

Cineasta do realismo e dos dramas sociais, Mike Leigh não precisa de renegar as suas raízes estéticas para fazer um filme de cores e sentimentos luminosos.

Cores. Muitas cores. Poppy gosta das cores vivas, intensas, festivas. Como se fosse possível viver dentro de um quadro de Warhol...

É bem certo que o dia a dia lhe traz a sua dose de desencanto e tristeza. Mas Poppy teima em não deixar que o negrume se instale e anule as cores — em sentido literal e no plano metafórico: a heróina do novo filme de Mike Leigh, "Um Dia de Cada Vez"/"Happy-Go-Lucky", tem esse programa político pouco na moda de não desistir da felicidade.

É um desafio para o próprio Leigh, como é óbvio. Afinal de contas, ele é o muito britânico e muito realista autor que assinou obras de grande cepticismo social e existencial como "Naked" (1993), "Segredos e Mentiras" (1996) ou "Vera Drake" (2004). Desta vez, partindo de um argumento de que é também autor, Leigh faz o retrato da não muito ortodoxa Poppy, professora primária cujos interesses vão desde a condução automóvel ao flamenco e que resiste a ser uma cidadã normal, alinhada e irremediavelmente previsível.

Para além da habitual vibração dos actores — Sally Hawkins, no papel de Poppy, é admirável de ternura e vulnerabilidade —, o trabalho de Mike Leigh neste filme não pode deixar de ser visto como um statement, também ele discretamente político. Trata-se de lidar com um contexto de evidente crise de valores sem aceitar que o niilismo se sobreponha ao valor mais radical do realismo: a singularidade que faz de cada ser humano uma coisa irrepetível, sempre potencialmente fascinante.


UM DIA DE CADA VEZ - HAPPY-GO-LUCK

De Mike Leigh com Sally Hawkins, Elliot Cowan, Alexis Zegerman;
Comédia; 118m; M/12; GB; 2008

Ouça a crítica de João Lopes

 


por

Recomendamos: Veja mais Artigos de Cinema EuropeuMais Cinema