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Redescobrindo uma ideia primordial de aventura

Eis uma boa surpresa: "Árctico", uma coprodução que envolveu Islândia e EUA, encena a saga de um homem que tenta resistir às condições agrestes de uma paisagem gelada — a aventura ainda vale a pena.

Redescobrindo uma ideia primordial de aventura
Mads Mikkelsen em cenário gelado, ou o cinema como aventura natural
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 Redescobrindo uma ideia primordial de aventura
Ártico Um homem preso no Árctico está prestes a ser socorrido. No entanto, depois de um trágico acidente a sua oportunidade perde-se. É então que ele tem de decidir se fica no espaço relativamente seguro do seu acampamento, ou se embarca numa jornada mortífera através do desconhecido e rumo à possível salvação.

Hoje em dia, no espaço mediático, triunfou um princípio de classificação da aventura cinematográfica que é, no mínimo, simplista. Assim, passou a ser crença dominante a ideia (?) segundo a qual os temas e emoções de qualquer narrativa aventurosa dependem do investimento nos chamados efeitos especiais... Marcada pelo imaginário tecnológico dos nossos dias, tal crença ignora mesmo que o conceito de efeito especial é tão antigo como o cinema (veja-se ou reveja-se a arte mágica de Méliès, produzida há mais de um século).

Dito de outro modo: a actual celebração da aventura tende a confundir-se com um sistemático empobrecimento das suas relações com os elementos naturais. Há mesmo quem pretenda favorecer a ideia (!) segundo a qual o impulso aventuroso se mede pelas respectivas componentes digitais. Daí, creio, a importância de celebrar um filme tão simples, e também tão sincero, como a coprodução Islândia/EUA que se intitula "Árctico".

Estamos, de facto, perante a narrativa de uma aventura situada naquilo que talvez possamos chamar um cenário primordial: esta é a história de um homem (Mads Mikkelsen, expressão minimalista, sempre cinematograficamente interessante) que começamos por conhecer, desde logo, enquanto sobrevivente de um cenário gelado — o seu avião despenhou-se e está por inteiro entregue às questões de sobrevivência...

Apetece dizer que a vibração dramática de "Árctico", envolvendo, claro, a situação específica da personagem central, se confunde com o trabalho do próprio filme. Afinal de contas, filmar a saga daquela personagem terá sido também um desafio aos recursos humanos e técnicos do próprio cinema. O que o realizador brasileiro Joe Penna conseguiu é, assim, qualquer coisa de anímico — o cinema nasce do desafio de olhar à sua/nossa volta.

Crítica de João Lopes
publicado 23:39 - 06 junho '19

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