Remake ou original? O espírito de “True Grit”. Velha Raposa (1969) vs. Indomável (2010)
John Wayne e Kim Darby em "Velha Raposa", 1969

Western  

Remake ou original? O espírito de “True Grit”. "Velha Raposa" (1969) vs. "Indomável" (2010)

O romance de Charles Portis deu origem a dois filmes diferentes, um em 1969 e outro em 2010. Pedro Mexia, ex director da Cinemateca, confronta as duas versões.

Os irmãos Coen dizem ter voltado à fonte original, o romance de Charles Portis, fazendo a sua própria leitura. Mas é impossível não comparar "Indomável" com "Velha Raposa", a primeira versão desta história, rodada em 1969 por Henry Hathaway, com John Wayne e Kim Darby nos papéis que agora são desempenhados por Jeff Bridges e Haille Steinfeld.

Pedro Mexia, escritor e crítico do jornal Expresso, esteve à conversa com o Cinemax e deu a sua opinião sobre estas duas versões da mesma história. 

Remake?

Se eu tivesse visto este filme sem me terem chamado a atenção para o outro, talvez não me lembrasse imediatamente. Por um lado os irmãos Coen negam a intenção de fazer um remake, e por outro lado sei que há diferenças suficientes na adaptação do próprio livro e na maneira como as personagens são vistas.

Para todos os efeitos são filmes feitos a partir do mesmo livro e com as mesmas personagens. Nesse sentido é um remake, eu acho que sim. A mesma história feita segunda vez é um remake, independentemente de outras circunstâncias que existam.

Mas evidentemente que os Coen são cineastas com outra dimensão. Eles têm uma característica, estão sempre a mudar de género. São cineastas que já fizeram filmes de praticamente todos os géneros e que gostam muito dessa permanente oscilação. E por outro lado têm ali uma grande dose de ironia e distanciamento. Eles estão a revisitar os géneros e a memória do cinema, mas sempre com um tom um pouco irónico e distanciado.

Dificilmente poderiam fazer um western como o do Clint Eastwood ("Imperdoável") onde há uma adesão emocional àquele género. Aqui não há. Embora o filme não seja propriamente divertido (e o livro em algumas passagens seja mais divertido) é muito irónico. Eles estão já bastante distanciados daquele universo do western.

Jeff Bridges vs. John Wayne

A função das duas interpretações de Rooster Cogburn é completamente diferente. A altura em que se fez o primeiro filme era uma época em que já se faziam westerns um bocadinho diferentes dos clássicos.

A ideia era fazer, no sentido literal e metafórico, o John Wayne cair do cavalo. Hathaway queria fazer um western que não fosse glorioso e exaltante, e jogar um pouco com a figura do John Wayne e do western.

Neste caso isso não é tão evidente. Desde logo os irmãos Coen dizem que o filme não é necessariamente um western (embora se passe nesse tempo e espaço) e o Jeff Bridges também disse que evitou pensar na figura do John Wayne.

Compará-los em termos de intenções e do método de trabalho não é possível, são completamente diferentes. Jeff Bridges é um actor de "composição", e John Wayne não, era um actor carismático. São muito diferentes e o caminho das interpretações é quase oposto.

Em relação ao Óscar para Melhor Actor, do que eu me recordo, não era um filme para John Wayne ganhar. Jeff Bridges ganhou recentemente e será prejudicado por isso. Pode ganhar, é um papel onde não lhe ficaria mal um Óscar. Apesar de tudo dificilmente escapará a Colin Firth.

Kim Darby vs. Haille Steinfeld

Lembro-me relativamente mal da personagem de Mattie Ross no filme de 1969, e a razão principal é que ela é muito menos protagonista do que é aqui. Os Coen seguiram mais fielmente o livro do que Hathaway, e neste último Mattie é claramente a narradora e a personagem principal, em vez de secundária, como no original. Neste caso a personagem e a actriz Hailee Steinfeld, que eles descobriram, são uma das grandes forças do filme.

Os dois filmes têm duas maneiras aceitáveis de chegar lá. O que interessava a um realizador e a outros eram opções diferentes. No primeiro caso tinha muito a ver com a própria memória do western e a figura do John Wayne, então era normal que se centrasse sobre ele. Aqui o que interessava aos Coen era essencialmente um romance.

Acréscimo de cenas

Quiseram ser o mais possível fiéis ao livro. A cena do homem que utiliza a pele de urso joga bem com um certo lado absurdo que os irmãos Coen gostam. É uma cena bizarra que faz mais sentido num filme dos Coen do que num western, embora esteja no livro original. Se há coisa que os irmãos Coen gostam é de personagens bizarras e linguagem estranha. Este livro tem as duas coisas em grande dose.

Os irmãos Coen escrevem muitos filmes de raiz, mas também encontram livros como o do Cormac McCarthy ("Este País Não É Para Velhos"), com um sentido completamente diferente, muito mais duro e nada irónico. Mas em ambos existe uma linguagem que os atrai muito, eles são muito obcecados pela maneira como as pessoas falam.

Basta lembrarmo-nos de "Fargo", onde o protagonista do filme é a linguagem daquela comunidade de origem escandinava, que tem uma maneira artificial, ou mesmo perra e divertida de falar. Esse é o universo deles. Quando se vê este filme e se pega no livro percebe-se que é realmente o universo deles.

Linguagem

Devo dizer que comprei o livro a seguir a ver o filme, porque de facto em termos de linguagem é uma coisa absolutamente notável, e os Coen são completamente maluquinhos pelo uso da linguagem, muito arrevesada, um pouco à Mark Twain. Nesse sentido a rapariga, que é muito empertigada e até um pouco pretensiosa, é central nesta questão da linguagem.

É um filme com mais diálogos que acção, e são diálogos muito literários. Essa foi provavelmente uma das razões para eles quererem adaptar o livro, mais do que por ser um western. No outro filme não notei que o texto fosse excepcional, mas desta vez estava a ver o filme e achei que era muito muito bom.

Em geral, nos westerns fala-se muito pouco e de uma forma muito directa. Aqui não, é uma linguagem muito artificial, no sentido literário, parece que estão a declamar teatro. E isso é muito engraçado no meio daquela dureza e rudeza de um western.

Comprei e estou a ler o livro, o que não é muito normal, comprar um livro por causa do filme. Ainda só estou no princípio mas passei alguns capítulos à frente para ter uma ideia, e parece-me que o argumento é muito fiel à estrutura do livro. Da primeira fala à última praticamente corresponde ao que está no romance de Charles Portis. Os diálogos, o tom... nesse sentido é claramente uma adaptação literária.



Fotografia

Visualmente, não me lembro muito bem do outro filme. Este é bastante canónico, tem cores que não são as cores gloriosas e mais vibrantes de alguns filmes. Mas são as cores voluntariamente pobres, de uma certa imagem do Oeste agreste.

A fotografia deste filme podia certamente ganhar o Óscar, como é costume noutros filmes do Coen. Mas em comparação ao primeiro filme este é uma visão do próprio espaço físico completamente diferente. Curiosamente tem um lado que é clássico, com grandes áreas e pessoas perdidas no meio daqueles espaços desérticos e enormes. Mas tem também um lado quase elegíaco, quase um lamento por um tempo passado. A escolha das cores faz sentido na própria tonalidade que eles deram ao filme, que é muito diferente da do filme de 1969.

The End: o final

Eu tenho sentimentos um bocadinho divididos sobre o final. Em geral não gosto muito destes finais de "uns anos depois", acho que é uma estrutura de epílogo um bocadinho desnecessária. Acho que o filme não perdia força se tivesse acabado uns minutos antes, com ela ainda miúda.

Dito isto, o final mesmo, não propriamente todo o final mas a última cena, é bastante forte. A última frase do filme - "O tempo foge-nos" - e essa maneira abrupta e pessimista como acaba é muito forte. Mas mais uma vez, querendo ser fiéis ao livro, não havia muita hipótese, porque no livro ainda é um epílogo bastante substancial.

Veredicto

Na altura que vi o primeiro filme gostei essencialmente da maneira como jogava com a personagem, personalidade e persona do John Wayne, mas não mais do que isso. Não fiquei com a ideia que fosse, em nenhum sentido da palavra, um grande filme.

Este também não é um grande filme. Podia ser, mas soube-me a pouco, esperava mais. Talvez esperasse que eles abraçassem mais directamente o género, mas acho que se percebe que não é exactamente isso que eles querem.

Depois de ver este filme, e tendo em conta a memória que tenho do outro, acho que o último é o melhor dos dois. Isso parece-me claro.

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