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Renoir, Becker, Melville e os outros

Foi um dos grandes acontecimentos do último Festival de Cannes: "Uma Viagem pelo Cinema Francês" é uma proposta de Bertrand Tavernier que nos leva a revisitar filmes e autores que importa conhecer para lá de qualquer cliché comercial ou cultural.

Renoir, Becker, Melville e os outros
"A Regra do Jogo" (1939) — Renoir é uma memória fundamental no filme de Tavernier
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 Renoir, Becker, Melville e os outros
Uma Viagem Pelo Cinema Francês com Bertrand Tavernier “Este trabalho como cidadão e espião, como explorador e pintor, como colunista e aventureiro, já tão bem descrita por vários autores, de Casanova a Gilles Perrault, é uma bela definição de realizador que queremos aplicar a Renoir, Becker, ao Vigo de ‘L’Atalante’, a Duviver, tal como a Truffaut ou Demy. A Max Ophuls e também Bresson. E a menos conhecidos realizadores como Grangier, Gréville ou ...

Afinal, de que falamos quando falamos de cinema francês?... Apesar do impacto comercial de algumas comédias made in France, há quem continue a enganar-se, proclamando que os franceses só sabem fazer filmes pomposos e pretensiosos, sempre apoiados em diálogos literários... Enfim, mesmo não comentando a utilização pejorativa da palavra "literário", convenhamos que nada é tão esquemático nem tão simplista.

Saudemos, por isso, a sensibilidade e inteligência de um filme como "Uma Viagem pelo Cinema Francês", uma espécie de fusão entre documentário e ensaio histórico com assinatura de Bertrand Tavernier, autor de obras como "Um Domingo no Campo" (1984), "À Volta da Meia-Noite" (1986) ou "A Filha de D'Artagnan" (1994). Podemos até não concordar com diversos pontos de vista formulados — o certo é que é sempre empolgante seguir o pensamento de alguém que tem uma genuína paixão pelas coisas do cinema.

Jean Renoir, com a sua obra-prima "A Regra do Jogo" (1939), filme terminal antes da eclosão da guerra; Jacques Becker, através de "Aquela Loira" (1952), a mais lendária composição de Simone Signoret; ou Jean-Pierre Melville, explorando a herança do noir americano através de títulos como "O Ofício de Matar" (1967), com um inesquecível Alain Delon — eis algumas das referências que Tavernier evoca, antes de tudo o mais recordando como tais filmes foram essenciais na sua formação como espectador. E há ainda Jean Vigo, Edmond T. Gréville, Robert Bresson, Max Ophüls, Claude Sautet, etc.

É esse, aliás, o segredo desta "Viagem". Não é um compêndio histórico, até porque se centra, sobretudo, em produções realizadas entre os anos 30 e 70. E está longe de ser um eco da imagem mais forte da Nova Vaga — Tavernier não pertenceu ao movimento e, em boa verdade, sente a sua sensibilidade mais ligada a obras geradas noutros contextos. Estamos antes perante um exercício de celebração de determinados valores narrativos e estéticos cuja riqueza, complexidade e contexto histórico Tavernier sabe descrever e interpretar.

Num tempo em que, não poucas vezes, as memórias do cinema (francês ou não) são tratadas como anedotas mais ou menos pitorescas e descartáveis, é bom encontrar, assim, alguém que connosco partilhe o seu gosto de ser espectador. "Uma Viagem pelo Cinema Francês" foi um dos grandes acontecimentos de Cannes/2017 — agora, a sua estreia entre nós mostra que, apesar de tudo, os valores da cinefilia não estão esquecidos.

Crítica de João Lopes
publicado 00:34 - 03 agosto '17

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