Revelações de Cannes
Jessica Chastain e Michael Shannon ("Take Shelter"), dois actores em destaque no Festival de Cannes.

Cannes 2011  

Revelações de Cannes

Cinco filmes escolhidos nas quatro áreas competitivas do festival de Cannes que vão marcar a próxima temporada.

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O festival de cannes apostou numa renovação de talentos e o palmarés confirmou que esse  caminho estava certo. A francesa Maïwenn e o dinamarquês Nicolas Widing Refn, realizadores desconhecidos do grande público, foram premiados com obras originais e que se destacam na produção cinematográfica de 2011.

Fora da selecção oficial surgiram boas surpresas no território dos independentes norte-americanos: "Take Shelter", de Jeff Nichols, foi premiado na secção paralela Semana da Crítica e deverá fazer caminho até aos Oscars, enquanto que "Return", de Liza Johnson, é um filme original sobre o impacto familiar causado pelo regresso de um soldado destacado no Iraque.

Estes cinco filmes foram escolhidos nas quatro áreas do festival - selecção oficial (competição e Un Certain Regard), Quinzena dos Realizadores e Semana da Crítica - e são valores seguros do ano cinematográfico.



Polisse, de Maïwenn - Selecção Oficial, prémio do júri
A actriz Maïwenn Le Besco, 35 anos, filha de Luc Besson, era um dos nomes que suscitava expectativas e reservas entre os 20 realizadores candidatos à Palma de Ouro, devido ao seu curto percurso  na realização (três filmes). Em "Polisse" observa a dura realidade de uma Brigada de Protecção de Menores pariense, focando, num registo realista, o drama das crianças e dos agentes da polícia. Os casos do filme foram inspirados em testemunhos reais e a realizadora consegue fazer justiça a essa verdade quase documental, oferecendo excelentes momento aos actores profissionais do seu filme - Karine Viard, Joey Starr, Marina Foïs, Nicolas Duvauchelle, Sandrine Kiberlaine e a própria Maïwenn atingem um ensemble act que marcará este ano de cinema.
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Drive, de Nicolas Winding Refn - Selecção Oficial, prémio de realização
Nicolas Winding Refn, 40 anos, saiu de Cannes com o prémio de melhor realizador com um filme de acção que foi olhado com algum desdém - o género não costuma marcar presença na selecção competitiva. "Drive" é um thriller sobre um duplo, um stunt pilot de Hollywood, que aproveita o seu engenho para conduzir gangs de ladrões durante assaltos. É um filme sobre as ramificações entre as máfias, o sub mundo do cinema e das corridas de automóveis, em Los Angeles, quase sem assunto e com uma violência que explode como pólvora seca. Ryan Golsin (nomeado para o Oscar por "Half Nelson") e Carey Mulligan (nomeada para o Oscar em "Educação"), formam o par central (visível na foto) que alarga o público seguidor do dinamarquês Winding Refn, que formou o seu gosto cinematográfico durante os anos que viveu em Nova Iorque. O jovem realizador descola da estética gore de "Vallalha Rising - Destino de Sangue" (premiado no Fantasporto, estreia dia 16 de Junho em Portugal) e parte para um filme visualmente muito apurado e sedutor para quem aprecia os anos 80. Foi um dos Ovnis do Festival de Cannes 2011 e uma das boas supresas.
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Take Shelter, de Jeff Nichols - Semana da Crítica, grande prémio
Fora da competição de Cannes, a Semana da Crítica é um dos espaços de divulgação de novissimos talentos. Não será o caso de Jeff Nichols (que já causou uma primeira boa impressão com "Histórias de Caçadeira"), mas o seu mais recente filme é uma das perólas de Cannes 2011 que urge descobrir (a Zon Lusomundo assegurá a distribuição em Portugal). O filme é um thriller alucinante sobre um homem perturbado e atormentado pela visão de uma tempestade apocaliptica, que decide construir um abrigo para preservar a sua família. Esquizofrénico ou visionário? "Take Shelter" confirma a capacidade do realizador Jeff Nichols para gerir histórias de grande intensidade psicológica na paisagem norte-americana. O drama contribuiu para ampliar a boa percepção que temos de Michael Shannon ("Revolutionary Road") e Jessica Chastain ("A Árvore da Vida"), dois talentos a seguir com atenção nos próximos anos. Um pequeno clássico revelado em Sundance e consagrado em Cannes com o grande prémio da Semana da Crítica. Não espantará se for o filme independente dos próximos Oscars.
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Return, Liza Johnson - Quinzena dos Realizadores
A estreia de Liza Johnson na realização com "Return" é uma lufada de ar fresco. O tema do stress após uma experiência traumática numa cenário de guerra tem sido abordado de forma recorrente  em diversos dramas sobre o regresso de militares desmobilizados do Iraque. "Return" observa esse impacto numa família de uma pequena localidade norte-americana e altera o paradigma usual, colocando uma mulher soldado no centro da acção e assumindo o seu desajustamento - sem motivo evidente - em relação ao marido e às filhas. É uma pequena produção independente que consegue transmitir uma perspectiva muito verdadeira sobre esta desordem social e familiar. Linda Cardellini (foto) e Michael Shannon (cá está ele outra vez em destaque) assumem desempenhos que consolidam esta primeira-obra.
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Elena,de Andrei Zvyaguintsev - Selecção Oficial Un Certain Regard, prémio do júri
O russo Andrei Zvyaguintsev, premiado com o Leão de Ouro em Veneza com "O Regresso", o seu filme de estreia, apresentou o seu terceiro filme em Cannes. Tal como sucedia nos filmes anteriores continua a trabalhar o tema da família e da importância dos laços de sangue. "Elena" é um retrato psicológico de uma mulher, uma enfermeira, casada com um homem mais velho e bastante rico. Ambos têm filhos de anteriores casamentos e isso perturba a sua convivência, sobretudo quando Elena tenta acudir às necessidades do filho e do neto, mas esbarra na falta de solidariedade do marido. É um filme psicológico de um realismo glacial no modo como observa realidades sociais distintas e acentua o contraste tão actual entre valores morais.

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publicado 23:20 - 05 junho '11

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