Rita Azevedo Gomes sobre Trio em Mi Bemol

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Rita Azevedo Gomes sobre "Trio em Mi Bemol"

O filme já está em exibição nas salas de cinema.

Já está em exibição nas salas de cinema portuguesas a longa-metragem "Trio em Mi Bemol", construída a partir de uma peça de teatro de Éric Rohmer, rodado em 2020 em plena pandemia, com parcos meios e uma equipa reduzida. Teve estreia mundial este ano no festival de cinema de Berlim e já viajou por quase uma dezena de outros tantos festivais.

A rodagem aconteceu quando Rita Azevedo Gomes decidiu "fazer qualquer coisa" para contornar os confinamentos por causa da covid-19, recuperando um projeto antigo em torno da única peça de teatro escrita pelo cineasta francês Eric Rohmer (1920-2010).

"Este projeto nasceu dessas circunstâncias e sobretudo naquela altura queríamos fazer qualquer coisa juntos. E para mim fazer qualquer coisa é tentar fazer um filme", afirmou Rita Azevedo Gomes à agência Lusa.

Na verdade, a realizadora tinha, há mais de vinte anos, a intenção de adaptar o texto de Éric Rohmer para uma peça de rádio, mas o projeto não chegou a ser concretizado.

"Quando chegou o confinamento achei sugestivo tornar a pegar neste tema, era mais ligeiro e menos depressivo da época que vivíamos na altura. Era um projeto fazível nas condições em que estávamos, sem subsídios", lembrou.

"Trio em Mi Bemol" - título que convoca uma composição de Mozart - é descrito pela realizadora como "uma comédia sentimental", sobre um homem e uma mulher que, depois de um divórcio, tornam a reencontrar-se por diversas ocasiões em casa dele.

Na longa-metragem, Rita Azevedo Gomes respeita quase na íntegra o texto original de Eric Rohmer, os longos diálogos entre as personagens Paul e Adélia, mas acrescenta-lhe a presença ficcionada de um realizador que está a fazer um filme sobre um casal.

"Interessava-me abordar aquela coisa de como é que se fabrica um filme, como é que se juntam as coisas, como é que as coisas acontecem, o percurso do ensaio, das ideias que se vão tendo. Sobrepus, ou contrapus, essa outra narrativa", explicou.

O filme é praticamente todo suportado pelas interpretações do ator Pierre León e da atriz Rita Durão, em francês, aos quais se juntam Ado Arreita e Olívia Cábez em papéis secundários.

São um elenco pequeno, com uma pequena equipa técnica e com um parco orçamento de produção, já que todos os envolvidos trabalharam "sem compromissos financeiros".

A rodagem aconteceu em três semanas, no Minho, numa casa do arquiteto Alexandre Alves da Costa desenhada pelo arquiteto Álvaro Siza e que é quase a quinta personagem do filme.

"A casa foi muito sugestiva. Vi aquela casa como uma moldura perfeita para aquele enredo, daquelas duas criaturas (as personagens) que estão um bocado confinadas àquele enredo amoroso e que parece que dali não saem", explicou.

Rita Azevedo Gomes, 70 anos, com formação em artes plásticas, trabalha em cinema desde os anos 1970 em várias funções, desde assistente de realização a figurinista. Estreou-se na realização em 1990, com "O som da terra a tremer".

É ainda autora de filmes como "Frágil como o mundo" (2001), "A vingança de uma mulher" (2012) e "A portuguesa" (2018).

Apesar de já ter feito outros filmes como "Trio em Mi Bemol", "com o que tinha no bolso, que era nada", Rita Azevedo Gomes precisará de mais meios de produção e de financiamento para um dos próximos projetos - ainda em fase de desenvolvimento -, que será a adaptação do romance "O sermão do fogo", de Agustina Bessa-Luís.

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