Sam Mendes à procurado paraíso perdido
Rodagem de "Revolutionary Road": Sam Mendes e Leonardo DiCaprio

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Sam Mendes à procura
do paraíso perdido

Adaptando o romance de Richard Yates, "Revolutionary Road" faz-nos regressar à nobre tradição do melodrama de Hollywood

Já não se fazem filmes destes. Quero eu dizer: são cada vez menos os realizadores americanos que arriscam revisitar as matrizes do melodrama clássico, afinal um dos géneros mais nobres da história de Hollywood que liga nomes tutelares como David W. Griffith a contemporâneos como Todd Haynes ou Clint Eastwood.

Sam Mendes revisita o paraíso perdido da classe média dos subúrbios, durante a década de 50 — o tempo de consolidação da sociedade de consumo —, um pouco como quem procura reencontrar essa outra utopia, genuinamente cinematográfica, de um cinema em convivência íntima com os sentimentos mais secretos de cada personagem.

Adaptando o romance de Richard Yates — publicado em 1961 e também agora lançado em tradução portuguesa —, Mendes consegue a proeza invulgar de expor as ilusões e desilusões de uma época, sem nunca abandonar o espaço específico de uma família e, muito concretamente, de um casal.

Kate Winslet e Leonardo DiCaprio são sublimes. E não apenas porque possamos senti-los na posse de uma notável técnica de representação. Há neles uma capacidade de entrega que lança luz sobre as comoventes vulnerabilidades de cada personagem, porventura permitindo-nos entrever um pouco da sua própria vida interior.

É, em tudo e por tudo, o contrário da obscenidade da telenovela. Na telenovela, os sentimentos são mecânicos, as relações estereotipadas e os dramas moralistas. Em "Revolutionary Road", sentimos a vibração mais secreta de cada gesto, cada palavra e cada silêncio.

 

REVOLUTIONARY ROAD
De Sam Mendes, com Leonardo DiCaprio, Kate Winslet, Kathy Bates; Drama; 119 min; M/16; EUA; GB; 2008


Ouça a crítica de João Lopes
ERRATA: a certa altura, na gravação aqui disponível, em vez de dizer "as crises de um casal da classe média em meados dos anos 50", digo "as crise de um casal da idade média em meados dos anos 50" —  tendo em conta que este filme parece vir de um tempo remoto de Hollywood, não deixa de ser involuntariamente irónico; mas está errado, como é óbvio.

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