Sangue ou Tabu: a escolha que dividiu
Joao Canijo, Cleia Almeida, Rita Blanco, Anabela Moreira em setembro de 2011: carreira internacional de "Sangue do meu Sangue" começou em San Sebastian.

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"Sangue" ou "Tabu": a escolha que dividiu

Os mais influentes produtores nacionais divergem sobre o filme que Portugal candidatou ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e não poupam a recém criada Academia de Cinema.

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"Sangue do Meu Sangue" de João Canijo, produzido pela Midas Filmes, surge entre o lote de filmes que 71 países submeteram à Academia das Artes e Ciências do Cinema dos Estados Unido no processo de nomeação dos cinco candidatos ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

O candidato português foi escolhido entre 21 filmes avaliados por um júri indicado pela recém criada Academia Portuguesa de Cinema, mas Pedro Borges, Luis Urbano e Paulo Branco, os três produtores mais influentes do cinema português, ouvidos pelo CINEMAX, mostraram divergências profundas em torno deste processo.

Desde logo, Pedro Borges, Midas Filmes ("Sangue") e Luis Urbano, O Som e a Fúria ("Tabu), revelam um entendimento muito diferente sobre as possibilidades de sucesso dos dois filmes que produziram.

O percurso de "Sangue" e "Tabu" dificultou a escolha da Academia - Paulo Trancoso, o presidente do organismo, lembra que não é possivel fazer uma "escolha ex-quo...", porque ambos obtiveram sucesso internacional nos festivais de cinema, amplo reconhecimento crítico e um número de espectadores semelhantes em Portugal - "Tabu" foi visto por 20.754 em 2012, e "Sangue do Meu Sangue" por 20.953 em 2011.

Luis Urbano, defende que "Tabu", realizado por Miguel Gomes, estaria em melhores condições para ser promovido junto dos membros da Academia graças a um plano de distribuição e "uma campanha séria", que prevê a exibição do filme em 40 ecrãs norte-americanos.

Salienta que colocou "a carne toda no assador" quando apresentou o filme à Academia Portuguesa de Cinema, reforçando que "Tabu", enquanto coprodução com capitais brasileiros e alemães, beneficiaria de um investimento das companhias desses países no esforço de promoção. Ficou surpreendido por falhar a indicação e considerando o trabalho feito não exclui a possibilidade de promover a candidatura de "Tabu" a melhor filme do ano.

Na resposta a estas críticas, Paulo Trancoso, presidente da Academia, esclarece que "nem o marketing, nem o público, nem os festivais" levaram à escolha de "Sangue do Meu Sangue". Defende a "escolha artística" baseada "no guião, na interpretação e na realização" do júri composto por Suzana Borges e Virgílio Castelo (atores) José Carlos Oliveira (realizador), Luís Galvão Teles (produtor) Lauro António (crítico), e não dúvida que "vai prestigiar o cinema português".

Midas empenhada na promoção mas desvaloriza a seleção
Pedro Borges, da Midas Filmes, desvaloriza a cerimónia dos Oscars, não se revê no cinema que a Academia de Hollywood premeia, e não espera que a candidatura de "Sangue do Meu Sangue" seja bem sucedida. De resto antecipa que no dia 10 de janeiro a comunicação social escreverá que "mais uma vez o cinema português falhou os Oscars".

Contraria os argumentos de Luis Urbano em torno da importância da distribuição salientando  que "só o vencedor da categoria consegue um impulso de visibilidade nos Estados Unidos, porque os outros raramente saem do anonimato". Ainda assim vai tentar uma campanha que promova o filme, através da distribuidora FIGA, uma empresa com experiência na promoção de cinematografias estrangeiras no continente Americano.

Pedro Borges prefere reforçar as dificuldades atuais do cinema português lembrando que "não tem qualquer apoio estatal porque está tudo parado" e que a promoção internacional de "Sangue do Meu Sangue" em dezenas de festivais internacionais "tem custos suportados pelo produtor".

Paulo Branco e a certeza de ter vivido este filme...A polémica repete-se e há um protagonista alheado da controvérsia de 2012, mas que não ficou indiferente quando o Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA), em 2011, optou por candidatar o documentário "José e Pilar" em detrimento de "Mistérios de Lisboa" (ver artigo recomendado "O fado que se escuta em Hollywood"). Paulo Branco entende que "Mistérios" tinha mais possibilidades de ser nomeado para os Oscars devido a um reconhecimento e distribuição internacional.

Assim, reafirma que "em anos anteriores a escolha do filme português tem sido mal feita porque não aproveita os filmes que estão bem colocados para defender uma campanha nos Estados Unidos". Acha que as escolhas refletem "acertos de contas do poder público com profissionais ou mesmo entre profissionais". E neste caso assume que "o filme do Miguel Gomes tinha mais hipóteses, porque o "Sangue do Meu Sangue" não teve prémios verdadeiramente importantes e andou em festivais menores".

Apesar de todas as divergências que existem entre produtores, a Academia une-os na contestação. Paulo Branco entende que "primeiro a Academia tem de ganhar legitimidade", e questiona a escola e os critérios do júri; Luis Urbano não é membro e rejeitará submeter os seus filmes aos futuros prémios Sophia "enquanto não perceber como funciona e quais os critérios de escolha"; Pedro Borges defende que o ICA deveria continuar a escolher o filme, e questiona o papel da Academia - "nasceu, mal, vive mal e morre pior, não tem estrutura, andou muito tempo a falar em distribuir prémios enquanto o cinema se debate com a crise, e agora adiou a cerimónia" de entrega dos prémios Sophia (ver artigo recomendado).

Paulo Trancoso evita prolongar a polémica e prefere não dar resposta às criticas dos produtores e cineastas em Portugal.

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