James Corden e Sandra Bullock — como refazer o espectáculo e a ironia?


joao lopes
22 Jun 2018 0:46

Fazer uma versão feminina de "Ocean’s 11" (2001), o filme de Steven Soderbergh com George Clooney e Brad Pitt, parece ser uma ideia sugestiva. De facto, parece… Mas vendo os resultados, fica-se com uma dúvida metódica: será que, para além da hipótese mecânica de refazer o filme de Soderbergh, agora com mulheres, existiu, realmente, alguma ideia de acção ou narrativa?

Os banalíssimos resultados de "Ocean’s 8" levam-nos a pensar que, em boa verdade, ninguém terá prestado a devida atenção ao que fazia a maravilha de espectáculo e ironia que era o trabalho de Soderbergh (aliás, tal como as suas duas sequelas, "Ocean’s 12" e "Ocean’s 13", respectivamente de 2004 e 2007). Agora, para além da preservação da ideia de um grande golpe — neste caso, para um roubo de jóias na gala anual do MET, em Nova Iorque —, tudo se reduz a uma "imitação" no feminino que se vai satisfazendo com a acumulação de pequenos episódios falhos de imaginação (e até de humor).
Convenhamos que talento não faltou. De facto, não é todos os dias que se consegue reunir um elenco em que surgem nomes como Sandra Bullock (é ela que, desta vez, possui o apelido ‘Ocean’), Cate Blanchett, Anne Hathaway, Sarah Paulson, Rihanna e Helena Bonham Carter… Mas quando não há personagens minimamente trabalhadas, que talento pode "compensar" a debilidade de um argumento?
James Corden, com um elaborado sentido caricatural, acaba por ser o único intérprete a mostrar alguma energia (se for politicamente incorrecto destacar um homem a propósito deste filme… tanto pior). Os resultados são tanto mais bizarros quanto o realizador, Gary Ross, é, também ele, um profissional de qualidades pouco comuns, como ficou amplamente demonstrado nessa magnífica fábula a cores/preto e branco que era "Pleasantville" (1998).
Enfim, para não deixarmos morrer o gosto cinéfilo, importa recordar que esta é uma variante sobre um modelo que não foi inventado por Soderbergh: o seu "Ocean’s 11" era, de facto, um remake de um filme homónimo, produzido em 1960, dirigido por Lewis Milestone, contando com a participação de Frank Sinatra, Dean Martin e Sammy Davis Jr. — eis o trailer original.

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