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Sem tempo para vencer o tempo

M. Night Shyamalan está de volta com mais uma proposta tão original quanto desconcertante: "Old - Presos no Tempo" é a aventura de um grupo de humanos que envelhecem de maneira inesperadamente acelerada...

Sem tempo para vencer o tempo
Gael García Bernal e Vicky Krieps numa praia assombrada: à maneira clássica da série B
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 Sem tempo para vencer o tempo
Old - Presos no Tempo Este verão, o visionário realizador M. Night Shyamalan apresenta um novo, arrepiante e misteriosothriller de uma famíliaque, enquanto estãonumas férias paradisíacas, descobremque a praia isolada onde estão está, de alguma forma, a fazê-los envelhecer rápida e inesperadamente... Reduzindo toda a sua vida a um único dia.

Não é possível esconder a premissa de um filme como "Old", a nova realização de M. Night Shyamalan, realizador que com "O Sexto Sentido" (1999) inaugurou um capítulo temático muito pessoal, algures entre a tradição do terror e um sistema de peculiares nuances fantásticas.

Assim, tal como está explicado no respectivo trailer, "Old" centra-se num casal em férias (Gael García Bernal e Vicky Krieps), acompanhados pelos filhos: numa praia paradisíaca, começam a sentir que envelhecem a uma velocidade delirante — qualquer coisa como um ano de vida por cada meia hora que passa...

Dir-se-ia que, com a proximidade muito física da morte, lhes falta tempo para vencer a maldição do tempo. Como se o universo inteiro caminhasse para um apocalipse de paradoxal nitidez: tudo o que acontece desafia as regras (e, mais do que isso, as medidas) da natureza humana. O subtítulo português é esclarecedor: "Presos no Tempo".

Prevalece, afinal, o espírito de uma certa série B clássica em que o misto de surpresa e inquietação nasce, não exactamente de uma ameaça palpável, mas sim de qualquer "coisa" que perturba a organização do tempo. Penso, por exemplo, num dos mais belos clássicos da série B — "The Incredible Shrinking Man" (1957), de Jack Arnold — em que, depois de estar exposto a uma radiação atómica, um homem vai diminuindo de tamanho, a caminho de uma dimensão microscópica [video com uma sequência do filme].


Será curioso referir que Shyamalan se baseou numa obra de banda desenhada do espaço francófono ("Château de Sable"). Na verdade, toda a concepção visual do seu filme, dos grandes planos muito aproximados até ao ritmo e aos cortes da montagem, parece decorrer desse universo em que a "reprodução" das relações humanas pode conter a insinuação de mundos tocados por um irracionalismo sem recurso.

Provavelmente, "Old" não está ao nível da sofisticação formal e da subtileza narrativa dos melhores filmes de Shyamalan, incluindo o já citado "O Sexto Sentido" ou "A Vila" (2004). Seja como for, ele continua a ser um exemplo modelar de um criador que utiliza o cinema como meio de discussão e superação da percepção comum, não como mera ostentação de efeitos (pouco) especiais.

Crítica de João Lopes
publicado 23:18 - 29 julho '21

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