Ser ou não ser...segundo Alain Resnais

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Ser ou não ser...
segundo Alain Resnais

Um cineasta que prossegue uma obra com mais de meio século, agora com "As Ervas Daninhas", deliciosa crónica social e existencial tocada pelas atribulações da comédia.

Afinal de contas, o que é que cada um de nós tem dentro da cabeça?... E como é que isso nos faz comunicar (ou não) com os outros?

"As Ervas Daninhas" é um filme sobre essas dúvidas. Que é como quem diz: uma teia de incidentes, coincidências, cumplicidades e rupturas que Alains Resnais filma como uma verdadeiro bailado existencial: ser ou não ser...

Até certo ponto, talvez possamos dizer que estamos face a um clássico filme psicológico, para mais ancorado numa dimensão social mais ou menos elaborada. Ou seja: uma teia de acontecimentos, próximos do fait divers, que nos vão transimitindo o sentimento quotidiano de uma época (a nossa, afinal). Mas essa é uma aparência. Porque, para Resnais, o que conta não é a mera ilustração de determinadas tipologias sociais, mas sim a dúvida metódica sobre aquilo a que chamamos relação social.

Há outra maneira de dizer isso: "As Ervas Daninhas" é um filme que parte do mais acidental (uma senhora a quem roubam a mala ao sair de uma sapataria...) para, a pouco e pouco, desenhar o mapa das muitas incompreensões que habitam as trocas — sociais, profissionais, afectivas, etc., etc. — estabelecidas pelas respectivas personagens.

Afinal de contas, Resnais não tem feito outra coisa nos seus filmes mais recentes, incluindo o sublime "Corações" (2006). Dir-se-ia que ele encontrou os mecanismos de um estilo insólito de comédia — será preciso lembrar que "As Ervas Daninhas" é um subtil divertimento? — para prolongar o gosto experimental inerente ao seu cinema. E esse gosto mantém-se, incólume e contagiante, nos clássicos mais remotos ("Hirsohima Meu Amor" já foi feito há mais de meio século...), ou em fascinantes exercícios de cinema como "As Ervas Daninhas" (título fundamental de Cannes 2009) — um dos momentos chave do ano cinematográfico, bien sûr.
 

 


Poster de  «As Ervas Daninhas»

AS ERVAS DANINHAS

Uma mala perdida, e entretanto encontrada por Georges, vai dar início a uma romântica aventura entre ele, um homem casado, e Marguerite, solteira e médica dentista. A vida familiar estável e feliz, vai ficar completamente virada do avesso.

De Alain Resnais com Emmanuelle Devos, Mathieu Almalric, André Dussolier; Drama; 104m; M/12; FRA; 2009




> Ouça a crítica de João Lopes

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