Estreias  

Sexualidade e amor, conhecimento e desconhecimento

François Ozon é um dos poucos autores franceses com quem, felizmente, o mercado português mantém uma relação regular — aí está o novo "Verão de 85", crónica subtil sobre uma adolescência viva e contraditória, para lá de qualquer cliché.

Sexualidade e amor, conhecimento e desconhecimento
Félix Lefebvre, François Ozon e Benjamin Voisin — rodagem de "Verão de 85"
Crítica de
Subscrição das suas críticas
145
Artigo recomendado:
Sexualidade e amor, conhecimento e desconhecimento
DVD Memória
5 x 2 - CINCO x DOIS (2004) Realizador de filmes como "8 Mulheres", "Swimming Pool" ou o recente "Dentro de Casa", François Ozon tem sabido exprimir-se através dos ...

François Ozon é, continua a ser, um cineasta de muitos e fascinantes contrastes. Por exemplo, "8 Mulheres" (2002), um dos seus títulos mais populares, propõe uma calorosa reinvenção da comédia musical, para tal contando com uma notável galeria de actrizes do cinema francês (Danielle Darrieux, Catherine Deneuve, Fanny Ardant, etc.). Numa dimensão mais grave, potencialmente trágica, encontramos as sombras envolventes de "Sob a Areia" (2000) ou ""5 x 2" (2004).

Agora, com "Verão de 85", dir-se-ia que deparamos com a explicitação de um "tema" que circula por toda a sua obra, entre ironia e assombramento. A saber: a descoberta da sexualidade e do amor, num jogo de revelações em que cada um se descobre também desconhecido de si próprio — assim acontece com os dois rapazes, Alexis e David, figuras centrais do filme, enredados numa relação em que coexistem maravilhamento e desencanto.


Digamos, para simplificar, que nada disso é estranho a um valor primordial do cinema de Ozon: a delicada direcção de actores. Félix Lefebvre e Benjamin Voisin, respectivamente como Alexis e David, são exemplares de energia e mistério, além do mais resistindo a qualquer cliché dramático ou moralista em torno da noção de "adolescência".

Onzon confirma-se, assim, como herdeiro muito directo de uma tradição francesa em que o romanesco se encena sempre através de um pressentimento trágico (não necessariamente consumado). Mais do que isso: com a aparente ligeireza dos seus modos de filmar, ele sabe construir ficções extremamente elaboradas que descobrimos como metódicos exercícios de "reportagem" sobre os seus actores.

Crítica de João Lopes
publicado 15:02 - 25 setembro '20

Recomendamos: Veja mais Críticas de João Lopes