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Sobre a nudez moral

Eis um pequeno grande filme, dos melhores e mais estimulantes estreados entre nós nos últimos meses: em "A Festa", Sally Potter desmonta o jogo de máscaras através do qual as suas personagens se relacionam — com um belo elenco liderado por Kristin Scott Thomas.

Sobre a nudez moral
Kristin Scott Thomas dirigida por Sally Potter — um filme saborosamente fora de moda
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 Sobre a nudez moral
A Festa A FESTA - uma comédia envolta em tragédia - desenvolve-se em tempo real numa casa de Londres, nos dias de hoje. Janet recebe um grupo de amigos próximos para celebrar a sua promoção a "Ministra-Sombra" da Saúde do partido da oposição. Mas o marido, Bill, parece preocupado. À medida que os amigos chegam, alguns com notícias para partilhar, a noite vai-se desenredando. Um anúncio de Bill provoca ...

Em "A Festa", Kristin Scott Thomas, actriz de uma versatilidade tecida de delicada contenção, surge a interpretar Janet, uma futura ministra da saúde. Mas a acção nada tem a ver com os cenários do seu trabalho político. Estamos, afinal, perante os dados tradicionais daquilo que parece uma não menos tradicional "comédia de costumes": Janet convida alguns amigos — serão apenas sete personagens naquelas duas ou três divisões — para celebrar a sua promoção ao novo cargo.

O menos que se pode dizer é que o filme dirigido pela britânica Sally Potter (famosa pelo seu "Orlando", de 1992, segundo Virginia Woolf) conta com um elenco de gente de sofisticado talento, cada um deles sabendo compor a respectiva personagem como espelho da mais velha, e indomável, fraqueza humana: a de mascarar a verdade mais funda de cada identidade — além de Kristin Scott Thomas, o filme inclui Timothy Spall, Patricia Clarkson, Bruno Ganz, Cherry Jones, Emily Mortimer e Cillian Murphy.

Importa não revelar ao leitor/espectador o enigma que assombra o filme — há nele qualquer coisa de irónico e terrível, dir-se-ia à maneira clássica de Agatha Christie. Sublinhemos apenas que a celebração está longe de decorrer como previsto. Em breves minutos (até porque o filme é exemplarmente sintético: 71 minutos), aquele colectivo vai ser atingido pelo não-dito das suas relações, num processo de desnudamento moral que Potter filma com implacável precisão clínica.

Eis um filme atípico, fora de moda e precioso: um filme que acredita que as personagens nascem através dos corpos dos actores, não pela banal acumulação de efeitos digitais e bandas sonoras mais ou menos ruidosas... Fotografado num admirável preto e branco pelo mestre russo Aleksei Rodionov, "A Festa" é um dos mais vulneráveis produtos comerciais que, nos últimos meses, chegaram às salas portuguesas — e também um dos mais brilhantes.

Crítica de João Lopes actualizado às 12:04 - 07 novembro '17
publicado 22:50 - 04 novembro '17

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