Sobressaltos do Sonho Americano
Channing Tatum e Steve Carell: memórias e mitologias americanas

Cannes 2014: FOXCATCHER, Bennett MILLER  

Sobressaltos do Sonho Americano

Bennett Miller, o realizador americano de "Capote" e "Moneyball", está na competição de Cannes com "Foxcatcher", sobre os dramas de um atleta que participou, em 1988, nas Olimpíadas de Seul.

Trailer/Cartaz/Sinopse:
 Sobressaltos do Sonho Americano
Foxcatcher Mark e Dave Schultz, dois atletas de luta livre consagrados com as medalhas de ouro nas olímpiadas de 1984, preparam a defesa do seu título nos próximos Jogos de Seul. Ambos são convidados por um milionário filantropo, John du Pont, que pretende formar o maior clube de luta livre do mundo na área luxuosa de Foxcatcher. Filme biográfico sobre história trágica dos lutadores Schultz e da relação com ...
Média Cinemax:
3.667

Ao descobrirmos a terceira longa-metragem do americano Bennett Miller, depois de "Capote" (2005) e "Moneyball" (2011), parece evidente que ele sente um fascínio muito especial por personagens verídicas que, por assim dizer, enfrentam desafios extremos à sua própria identidade — "Foxcatcher", apresentado na competição de Cannes, é o retrato do extravagante e intrigante milionário John Du Pont e, em particular, do seu apoio à preparação de Mark Schultz, atleta de luta livre que representou os EUA nos Jogos Olímpicos de Seul (1988).

O menos que se pode dizer de "Foxcatcher" é que representa um desafio invulgar ao seu trio de actores principais: Steve Carell, numa espantosa transfiguração física, assume a personagem de Du Pont; Channing Tatum é Mark Schultz, expondo as contradições entre a sua destreza física e os hábitos de consumos pouco recomendáveis resultantes da sua ligação com Du Pont; enfim, Mark Ruffalo interpreta Dave Schultz, irmão de Mark que tenta gerir a situação na procura de algum equilíbrio físico e anímico.

Sem ser um filme pesadamente "simbólico", "Foxcatcher" impõe-se como uma parábola sobre algumas componentes do imaginário mitológico made in USA, a começar pelo desejo de vencer e pela utopia de construção de um mundo autónomo e perfeito que seja um espelho da própria nação — Du Pont é o espelho bizarro de tal impulso utópico.

Nesta perspectiva, Du Pont tem tanto transparente como de indecifrável, sendo a composição de Carell decisiva para fazer pairar a personagem numa espécie de limbo moral que, mesmo os mais próximos, nem sempre conseguem decifrar. Em resumo, com contido brilhantismo, Bennett Miller conseguiu criar mais um espaço de contemplação e crítica dos sobressaltos do Sonho Americano.

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publicado 00:43 - 20 maio '14

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