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Sociologia, ironia e drama

Consagrado nos Óscares (melhor argumento original), "Uma Miúda com Potencial" é uma história sobre o masculino/feminino que sabe evitar qualquer maniqueísmo moral ou dramático.

Sociologia, ironia e drama
Carey Mulligan no retrato de uma "jovem mulher com potencial"
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 Sociologia, ironia e drama
Uma Miúda com Potencial Todos pensavam que Cassie (Carey Mulligan) era uma miúda com potencial... Até um misterioso acontecimento ter subitamente arruinado o seu futuro. Nada na vida da Cassie é o que parece ser: ela é perversamente inteligente, tentadoramente astuta, e está a viver uma vida dupla e secreta durante a noite. E agora, um encontro inesperado está prestes a dar a Cassie a oportunidade de ...

Em paralelo com o movimento #MeToo, o imaginário social para o cinema tem por vezes gerado um efeito simplista: os filmes deveriam ser meras "transcrições" dos valores femininos, porventura feministas. Um filme como "Uma Miúda com Potencial" (título original: "Promising Young Woman") pode ajudar-nos a sair dessa prisão simbólica.

Acontece que uma coisa é a pertinência e a legitimidade — mais do que isso: a indiscutível importância histórica — da defesa da igualdade entre os géneros e, em particular, a condenação de todas as formas de violência de homens contra mulheres. Outra coisa é o trabalho artístico de construção de uma narrativa, directa ou indirectamente tocada por tal temática.

O filme escrito e dirigido por Emerald Fennell evita, com inteligência e elegância, qualquer maniqueísmo pueril. A história de uma jovem mulher marcada por uma situação de abuso a que assistiu (tendo como alvo uma colega, ainda enquanto estudante) envolve dois trunfos decisivos para que "Uma Miúda com Potencial", mesmo quando opta pelas variações caricaturais, consiga preservar a sua acutilância crítica.

O primeiro desses trunfos é a interpretação de Carey Mulligan na personagem central: há nela uma ambiguidade tão desconcertante quanto eficaz que a faz existir como uma espécie de cruzamento entre a seriedade do retrato sociológico e a ironia, até o sarcasmo, de uma figura vingadora saída de um filme de terror. O segundo trunfo é, obviamente, o argumento ("oscarizado") do filme, da autoria da própria Fennell: o seu tom de comédia negra, também ele calculadamente ambíguo, tem o saber e o sabor de um certo classicismo que talvez possamos remeter, por exemplo, para a herança de um grande analista das relações homens/mulheres como Billy Wilder.

Destaque especial merece o visual do filme, envolvendo cenografia, guarda-roupa e direcção fotográfica (esta com assinatura de Benjamin Kracun). São elementos que estão longe de se esgotar em qualquer facilidade "decorativa", contribuindo de forma decisiva para o clima dramático de "Promising Young Woman": um conto quase surreal, pontuado pela contundência dos detalhes realistas.

Crítica de João Lopes
publicado 20:05 - 01 maio '21

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