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Spike Lee filma o passado no nosso presente

Foi um dos momentos altos de Cannes e fica, desde já, como um dos filmes maiores de 2018: "BlacKkKlansman: O Infiltrado", de Spike Lee, é uma extraordinária abordagem do racismo na história moderna dos EUA.

Spike Lee filma o passado no nosso presente
Adam Driver e John David Washington: atravessando as convulsões da história americana
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 Spike Lee filma o passado no nosso presente
BlacKkKlansman: O Infiltrado No início dos anos 70, um período de grande agitação social onde a luta pelos direitos civis vai enfurecendo. Ron Stallworth (John David Washington) torna-se o primeiro detetive afro-americano do Departamento da Polícia de Colorado Springs, mas a sua chegada é vista com ceticismo e abre hostilidades nos vários departamentos. Com audácia, Stallworth decide subir a pulso e fazer a diferença na sua ...
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Logo após a passagem de "BlacKkKlansman" em Cannes/2018 (onde ganhou o Grande Prémio, segundo na hierarquia do palmarés), todos ficaram a saber que o filme de Spike Lee partia de uma história verídica do final dos anos 70 para desembocar na actualidade da América de Donald Trump. Provavelmente, essa revelação retirou algum efeito de "surpresa" aos minutos finais do filme... Mas a questão não é essa: o que importa sublinhar é o empenho de Lee em mostrar, de forma inteligentemente crítica, que a nossa relação com o passado envolve sempre alguma visão do presente.

Em termos esquemáticos, esta começa por ser a história de uma ambiguidade à beira do burlesco. Assim, em 1979, Ron Stallworth (magnificamente interpretado por John David Washington, filho de Denzel Washington) tornou-se o primeiro elemento afro-americano da polícia de Colorado Springs. E com tanto empenho assumiu as suas funções que conseguiu inscrever-se (via telefone...) no Ku Klux Klan. Escusado será dizer que os pressupostos racistas da organização o impediam de se mostrar enquanto membro, pelo que o seu colega Flip Zimmerman (Adam Driver) se assumiu como seu duplo...

Enfim, esta mini-sinopse está longe de esclarecer a saubtileza e complexidade da realização de Lee. E tanto mais quanto, como ficou dito, "BlacKkKlansman" (entre nós lançado com o subtítulo 'O Infiltrado') percorre um arco temporal que desemboca em 2017, mais precisamente na manifestação dos supremacistas brancos a 11/12 Agosto em Charlottesville, Virginia. Em boa verdade, este é um fresco histórico sobre o racismo na história dos EUA, tendo como ponto de fuga, de uma só vez material e simbólico, o tempo aqui e agora.

Criando permanentes ziguezagues entre os destinos pessoais e as convulsões colectivas, cruzando os detalhes privados com os elementos do espaço público, a narrativa de Lee consegue, afinal, expor o continente histórico como uma paisagem em permanente reconversão e reapropriação. Lembremos, por isso, alguns dos seus títulos mais admiráveis como "Malcolm X" (1992), sobre o polémico líder afro-americano, "Verão Escaldante" (1999), evocando uma estação trágica em Nova Iorque, ou "A Última Hora" (2002), por certo uma das mais admiráveis reflexões sobre a América pós-11 de Setembro — "BlacKkKlansman" é um novo e exemplar capítulo na sua brilhante filmografia, sem hesitação, desde já, um dos filmes maiores de 2018.

Crítica de João Lopes
publicado 22:57 - 06 setembro '18

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