Estreia  

Steven Soderbergh, o minimalista

Como poucos, dentro ou fora da produção americana, Steven Soderbergh continua a ser um cineasta capaz de criar espantosos filmes a partir de orçamentos reduzidos — "High Flying Bird/O Céu É o Limite" é uma das suas proezas mais recentes.

Steven Soderbergh, o minimalista
"O Céu É o Limite": um retrato do basquetebol para lá dos clichés desportivos
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Como filmar o mundo do basquetebol? Enfim, não se poderá dizer que "High Flying Bird/O Céu É o Limite" (Netflix) seja exactamente uma história sobre a especificidade do desporto. Ou melhor, é-o enquanto fenómeno cultural que é sempre, intrinsecamente, comercial.

Dito de outro modo: tendo como base um argumento de Tarell Alvin McCrane (oscarizado pelo argumento de "Moonlight", 2016, prémio partilhado com Barry Jenkins), Steven Soderbergh filma a paisagem social à volta da NBA como um universo de relações que é também, ponto por ponto, um sistema de circulação de dinheiro — e fá-lo com a mestria de quem sabe gerir um orçamento minimalista para gerar uma narrativa que tem qualquer coisa de tragédia suspensa.

Daí a contundência, e também o desencanto, que perpassa pelas situações vividas, não tanto nos rectângulos do jogo, mas em ambientes liofilizados (escritórios e hotéis, sobretudo) que parecem funcionar como desafios ao poder — ou à falta de poder — que cada personagem detém. Sem esquecer que a luz crua desses ambientes é admiravelmente tratada pela direcção fotográfica, uma vez mais da responsabilidade do próprio Soderbergh, assinando com o pseudónimo de Peter Andrews.


Como memória, recordemos apenas três títulos da filmografia de Soderbergh que constituem outras tantas proezas de encenação, a partir de recursos igualmente austeros. Também para lembrarmos que a sua autoria de grandes máquinas de estúdio (incluindo a magnífica série iniciada com "Ocean's Eleven", 2002) não basta para abarcar a pluralidade criativa do seu universo.

1989 - SEXO, MENTIRAS E VIDEO: um marco na definição identitária de um certo cinema independente made in USA. Certamente não por acaso, esta longa-metragem de estreia de Soderbergh é também um exercício sagaz sobre os poderes do video na reconfiguração das relações entre os humanos — Palma de Ouro em Cannes.

2005 - BUBBLE: infelizmente nunca estreado em Portugal (disponível em DVD), nele se faz o retrato clínico de uma cidadezinha do estado do Ohio em que a existência de uma fábrica de bonecas parece ser o sinal fantasmático de um destino fatal — ou como o policial pode ser refeito em tom de melodrama assombrado.

2011 - UMA TRAIÇÃO FATAL: no original "Haywire", tem como principal intérprete Gina Carano, figura das chamadas artes marciais mistas. Com um elenco de luxo (em que se incluem ainda, por exemplo, Michael Douglas, Antonio Banderas e Ewan McGregor), trata-se de um brilhante exercício de reinvenção do "thriller" clássico.

Crítica de João Lopes
publicado 00:47 - 01 fevereiro '21

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