Tempos de Verão,paisagens francesas
Um belo filme francês
na tradição romanesca de Renoir e Ophuls

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Tempos de Verão,
paisagens francesas

Olivier Assayas está de volta com um filme magnífico: "Tempos de Verão" é uma delicada crónica familiar e um conciso retrato social

Será que existe — isto é, que continua a existir — um cinema francês que não tenha perdido o contacto com o seu imenso património romanesco, eventualmente romântico, alicerçado nas filmografias exemplares de autores como Jean Renoir (1894-1979) ou Max Ophuls (1902-1957)?

Se dúvidas houvesse, o novo e belíssimo filme de Olivier Assayas, "Tempos de Verão" ("L'Heure d'Été" no original), bastaria para as dissipar. Eis-nos perante um princípio fundamental desse romanesco: o de manter uma atenção obsessiva às convulsões afectivas, nomeadamente familiares, sem perder de vista uma dimensão realista de retrato social.

O pressuposto central de "Tempos de Verão" passa pela curta existência (enquanto presença física) da personagem da mãe, interpretada por Edith Scob. Assim, depois de uma cena de abertura em que a conhecemos, acompanhada dos seus três filhos (Charles Berling, Juliette Binoche e Jérémie Renier), o filme confronta-nos com uma elipse desconcertante — na cena seguinte, a mãe morreu e os filhos começam a ter que lidar com a sua herança, de uma só vez financeira e emocional.

Na prática, aquilo que interessa Assayas pouco ou nada tem a ver com as "peripécias" da história, entendidas como episódios mais ou menos anedóticos da vida de cada um (não há, aqui, nada de telenovelesco). Trata-se de filmar as paisagens sentimentais onde terá lugar o bizarro processo de revelação — individual e familiar — que a morte instala. Dito de outro modo: "Tempos de Verão" é um filme sobre o metódico, por vezes cruel, mas sempre sereno, trabalho de luto.

Na trajectória criativa de Assayas, este é também um regresso ao fulgor de alguns dos seus primeiros filmes, incluindo "Désordre" (1986) e "L'Enfant de l'Hiver" (1989). Depois de uma passagem pouco feliz por um cinema banalmente "americanizado" — lembremos o caso desastroso de "Demonlover" (2002) —, Assayas está exactamente com as suas personagens principais: empreendeu um salutar regresso às origens.





TEMPOS DE VERÃO

De
Olivier Assayas com Juliette Binoche, Charles Berling, Jérémie Renier; Drama; 103m; M/12 FRA; 2008; 


Ouça a crítica de João Lopes




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