Estreias  

Terror a preto e branco

Eis uma das revelações americanas deste ano: o actor Jordan Peele estreia-se na realização com um filme que faz lembrar alguns clássicos do cinema de terror — "Foge" é uma história assombrada, integrando inesperadas e perturbantes componentes sociais.

Terror a preto e branco
Daniel Kaluuya e Allison Williams: "Adivinha quem Vem Jantar?" em registo de terror
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Não, o filme "Foge" [título original: "Get Out"] não é fotografado a preto e branco... E se fosse?... Em qualquer caso, este é, de facto, um filme sobre as cores — as cores das raças, entenda-se. Ironicamente, podemos dizer que o ponto de partida coincide com o de um clássico de 1967: "Adivinha quem Vem Jantar?". Ou seja, Rose (Allison Williams), uma jovem branca, decide visitar os pais para lhes apresentar Chris (Daniel Kaluuya), o seu namorado negro. Desta vez, porém, não se trata de uma comédia de costumes, mas sim de uma viagem pelas regras do cinema de terror.

Importa não "descrever" o filme, evitando revelar demasiado sobre as suas peripécias e situações (o que, a meu ver acontece, erradamente, no respectivo trailer). Afinal de contas, esta é mesmo uma história em que o suspense — a tensão entre o que sabemos e o que não sabemos ou vamos intuindo — surge como fundamental elemento. Digamos, então, simplificando, que estamos perante uma narrativa que tende para uma dimensão surreal, sem nunca alienar alguns inquietantes sinais sociais.
 

Que está, então, em jogo? As relações entre brancos e negros, precisamente. E, acima de tudo, a persistência, ora discreta, ora ostensiva, de elementos racistas no quotidiano mais "liberal". Assim, "Foge" é um filme que vai, metodicamente, explorando a ambiguidade de componentes dramáticas que fazem recordar algumas grandes referências clássicas do género de terror — recordamo-nos, sobretudo, do espírito de alguns filmes das décadas de 40/50, produzidos por Val Lewton para a RKO.

"Foge" marca a estreia na realização de Jordan Peele, actor com uma carreira predominantemente televisiva, com especial sucesso americano através da série "Key and Peele" (criada e protagonizada por ele e Keegan-Michael Key). Para além da sua subtil direcção de actores — destaque-se também o par Bradley Whitford/Catherine Keener (como pais de Rose) —, Peele mostra que sabe reinvestir matrizes tradicionais, tratando-as através de perturbantes "desvios" contemporâneos.

Crítica de João Lopes
publicado 16:04 - 04 maio '17

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