Tintin também pode ser digital
"As Aventuras de Tintin": o (novo) regresso da grande aventura

3D  

Tintin também pode ser digital

Está quase a chegar o muito aguardado "Tintin", com assinatura de Steven Spielberg: é o começo de um processo criativo apostado em salvar o 3D e relançar a grande aventura.

Lembremos uma banalidade: toda a popularidade de Tintin (e o imaginário que a sustenta) foi construída através do papel. De facto, apesar de algumas adaptações cinematográficas e televisivas das aventuras do herói criado por Hergé (1907-1983), Tintin é sobretudo conhecido como uma das personagens mais lendárias do universo da banda desenhada (num total de 24 álbuns, o últimos dos quais inacabado).

Daí que a passagem de Tintin para o cinema em 3D fosse aguardada como um teste decisivo. E não apenas por causa da especificidade (figuras, cenários, acção, simbologia, etc.) do desenho de Hergé. Também porque, na actual conjuntura da produção de Hollywood, a questão do 3D deixou de ser uma mera mais-valia técnica para adquirir a condição dramática de um gigantesco investimento cujo futuro não é certo (lembremos que tem havido uma quebra regular do comportamento comercial dos filmes em 3D, a ponto de o mais recente título da série "Os Piratas das Caraíbas" ter tido mais espectadores a optar pelas tradicionais cópias em 2D).

Que acontece, então, em "As Aventuras de Tintin: O Segredo do Licorne", de Steven Spielberg? Como é que Spielberg e Peter Jackson, aliados na produção (Jackson realizará um segundo filme), encararam esta reconversão técnica e narrativa?

Para já, o mínimo que se pode dizer é que a aposta inicial está ganha. Que é como quem diz: Spielberg consegue potenciar as componentes específicas do 3D, ao mesmo tempo garantindo a preservação de um conceito de aventura, de grande aventura, a que, naturalmente, a sua própria obra não é estranha -- recorde-se que, em 1981, o primeiro episódio da saga de Indiana Jones, "Os Salteadores da Arca Perdida", foi lançado com a célebre frase: "O regresso da grande aventura".

Ainda assim, convém não reduzir o acontecimento a um banal "pró" ou "contra" o 3D. Isto porque, mais que tudo, Spielberg apresenta uma requintada evolução do próprio conceito de "motion capture". Que é como quem diz: a filmagem prévia da acção com os actores, depois transformados em figuras computorizadas, tratadas como objectos de animação digital (aliás, com frequência, a expressão "motion capture" passou a dar lugar à noção de "performance capture").

Fica, por isso, um primeiro balanço, tão desconcertante quanto sugestivo: actores como Jamie Bell (Tintin) ou Andy Serkis (Capitão Haddock) têm excelentes composições em "As Aventuras de Tintin: O Segredo do Licorne" mas, de alguma maneira, já não estão na imagem. Quem está, então? Novas entidades figurativas que conservam a densidade dos corpos, possuindo a ligeireza de um desenho animado.

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publicado 23:59 - 19 outubro '11

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