Todos os rostos de um festival
Bérénice Bejo, em "Le Passé": uma das grandes interpretações femininas de Cannes/2013

Cannes  

Todos os rostos de um festival

Das duas actrizes de "La Vie d'Adèle" até à lendária Kim Novak, o 66º Festival de Cannes foi uma parada de personalidades que atestam a vitalidade do cinema: a sua energia e as suas imagens vão ficar em todas as memórias cinéfilas.

De que rostos nos vamos lembrar a propósito do 66º Festival de Cannes?

Por exemplo:

- Marine Vacth: a fulgurante revelação de "Jeune & Jolie", de François Ozon, inscrevendo-se numa linhagem de grandes intérpretes do cinema francês a que pertencem Romy Schneider e Catherine Deneuve.

- Bérénice Bejo (foto): a actriz que julgávamos conhecer através do registo burlesco de "O Artista" mas que, de facto, em "Le Passé", de Asghar Farhadi, mostra uma espantosa gama de recursos dramáticos (o júri deu-lhe o prémio de melhor interpretação feminina).

- Benicio del Toro: o índio cansado de "Jimmy P.", de Arnaud Desplechin, uma espécie de inversão simbólica do American Dream que, por certo, merecerá mais atenção que aquela que recebeu no certame.

- Oscar Isaac: canta muito bem e é um actor de admirável versatilidade, como bem o demonstrou no novo trabalho dos irmãos Coen, o hiper-simples e hiper-sofisticado "Inside Llewyn Davis" (Grande Prémio).

- Michael Douglas: genial na composição de Liberace, em "Behind the Candelabra", de Steven Soderbergh, um filme para lá de qualquer formatação emocional, sexual, simbólica e até televisiva (afinal de contas, tem produção da HBO, um canal de cabo).

- Bruce Dern: o veteraníssimo actor americano que, afinal, corporiza a própria nostalgia cinéfila que passa pelo filme "Nebraska", de Alexander Payne (melhor interpretação masculina).

- Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux: o júri considerou que a Palma de Ouro era para elas e para Abdellatif Kechiche... et voilà!

- Emmanuelle Seigner: discreta e fulgurante, vulgar e sublime, sempre feminina, é uma das forças motrizes do prodigioso "La Vénus à la Fourrure", de Roman Polanski (foi o derradeiro título da competição e, num certo sentido, "ninguém" o viu).

- Adam Bakri: notável actor de "Omar", de Hany Abu-Assad, um filme admirável sobre personagens da Palestina divididas entre o terror e o amor ("Un Certain Regard").

- Conner Chapman: intérprete de um pequeno grande filme visto na Quinzena dos Realizadores ("The Selfish Giant", de Clio Barnard), exemplo modelar do realismo britânico, centrado na existência dramática de um rapaz num bairro pobre.

- Kim Novak: esteve em Cannes para a acompanhar a projecção de uma cópia restaurada de "Vertigo" (1958), de Alfred Hitchcock, e na sessão de encerramento falou da tristeza por não ter a seu lado Alfred Hitchcock e "Jimmy" Stewart... a cinefilia faz-se também da revisitação metódica do passado.

E por que é que nos lembramos de rostos?

Porque é que todos os rostos, associados aos grandes filmes que vimos, nos acompanham em qualquer digressão pelo 66º Festival de Cannes?

Porque, justamente, Cannes/2013 foi um festival de gente viva, personagens com direito a existirem em todas as suas diferenças e contradições, não como meros acessórios de uma qualquer programa narrativo ou iconográfico.

Razão suplementar para saudarmos a coragem simples do júri presidido por Steven Spielberg em distinguir com a preciosa Palma de Ouro o não menos precioso "La Vie d'Adèle", de Abdellatif Kechiche. Vai ser bom recordar este festival e poder dizer, sem ostentação, mas através de uma memória feliz: Eu estive lá.

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publicado 23:53 - 26 maio '13

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