Um cinema que acreditanos actores (...e actrizes)
Anne Hathaway e Rosemarie DeWitt: elogio da dimensão humana do cinema

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Um cinema que acredita
nos actores (...e actrizes)

Reencontro com Jonathan Demme ("O Silêncio dos Inocentes"), autor que também sabe exprimir-se através de um cinema de grande ligeireza técnica, mas de enorme complexidade emocional

Duas irmãs: uma parece corresponder aos mais seguros valores familiares, vai casar-se; a outra é a "ovelha ranhosa" da família, sai por alguns dias do seu tratamento contra a toxicodependência para assistir ao casamento da irmã — o reencontro não é pacífico e desencadeia muitas formas de violência afectiva, tanto mais que os pais estão divorciados e a mãe, há algum tempo "desaparecida", também vem assistir à cerimónia...

Contado assim, apetece dizer que a "intriga" de "O Casamento de Rachel" podia ser a base de uma telenovela medíocre e moralista, como são todas as que protagonizam o massacre quotidiano da ficção audiovisual. Mas não: uma narrativa — um filme, por exemplo — não é apenas uma acumulação de "peripécias", mas sim um modo específico de lidar com o mundo e a dimensão humana.

Estamos, afinal, perante um caso verdadeiramente fulgurante de reconversão de um modelo de realismo emocional cujas raízes estão no melodrama clássico, mas também nesse cinema de enorme cumplicidade entre câmara e actores, cinema que, nos 60/70, John Cassavetes tão exemplarmente simbolizou ("Maridos", recentemente lançado em DVD, pode ser um exemplo esclarecedor).

Jonathan Demme vem confirmar que continua a saber aplicar os valores decorrentes da sua formação num cinema de produção ágil e ligeira, nos tempos heróicos do produtor Roger Corman (que surge, aqui, num brevíssimo papel). O Casamento de Rachel é o produto de uma estética enraizada num modelo de "quase-reportagem", mas que preserva um labor ultra-complexo com os actores e através dos actores.

Nos papéis das duas irmãs, Anne Hathaway (nomeada para o Oscar de melhor actriz) e Rosemarie DeEwitt são sublimes, reafirmando o valor da representação num cinema que nem sempre tem sabido resistir às ilusões barrocas da tecnologia. A frase regressa e torna-se obrigatório repeti-la: o melhor efeito especial é o actor (ou a actriz).


CASAMENTO DE RACHEL - RACHEL GETTING MARRIED

De Jonathan Demme com Anne Hathaway,Rosemarie Dewitt, Debra Winger; Drama; 114m; M/12; EUA; 2008


Ouça a crítica de João Lopes

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