Nome: Godard
Uma imagem, um som:
uma geração, duas gerações

Festival  

Nome: Godard

Jean-Luc Godard continua a filmar o presente, o seu assombramento pelo passado e a sua vacilação face ao futuro. O título: "Film Socialisme"

Muitas vezes citado por, alegadamente, ter proferido a mais cruel visão sobre o destino do cinema — aguardo a morte do cinema com optimismo —, Jean-Luc Godard mantém-se fiel a si próprio. Que é como quem diz: faz um cinema de militante reflexão sobre a vulnerabilidade dos filmes num mundo dominado, não apenas pelos valores televisivos, mas também pela aceleração digital do planeta: afinal de contas, trocamos infinitas mensagens, mas será que ainda falamos com alguém?

"Film Socialisme" (selecção oficial, "Un Certain Regard") é, justamente, um objecto sobre essa dificuldade muito contemporânea de nos sentirmos ligados aos outros, numa espécie de nostalgia sem fim de que a palavra socialismo é, não o paradigma ideológico, mas a utopia existencial.

Como muitas vezes acontece no seu trabalho, Godard propõe uma espécie de painel sinfónico, desta vez dividido em três andamentos: um cruzeiro no Mediterrâneo que é uma parada de personagens realistas (Alain Badiou, Patti Smith, etc.), assombradas pela solidão das suas próprias palavras; uma colagem de quadros caseiros, com os pais confrontados com a singularidade dos filhos; enfim, uma espécie de "allegro com brio" em que os fantasmas de muitas histórias (Odessa, Egipto, Palestina, etc.) nos relançam na herança trágica do século XX.

Não vamos, por certo, ver outro filme como este neste festival. Porquê? Porque, em boa verdade, "Godard" é o nome de um continente selvagem, também ele solitário, das imagens (e sons) do nosso tempo. Entrando nele, ficamos, talvez, em silêncio, perguntando: que significa olhar uma imagem (e escutar um som)? Ou ainda: de que falamos quando falamos do olhar que nos faz falar?

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