Um continente chamado Godard
Zoé Bruneau no continente "godardiano": a natureza como utopia perdida

Cannes 2014: ADIEU AU LANGAGE, Jean-Luc GODARD  

Um continente chamado Godard

O cinema de Jean-Luc Godard continua a ser um continente à parte, único e fascinante — "Adieu au Langage" encena a dificuldade de ver o próprio mundo e constitui, desde já, o momento nuclear do 67º Festival de Cinema de Cannes.

Trailer/Cartaz/Sinopse:
 Um continente chamado Godard
Adeus à Linguagem A ideia é simples:uma mulher casada e um homem solteiro encontram-se. Eles amam, eles argumentam, há punhos a voar. Um cão vagueia entre a cidade e o país. As estações passam. O homem e a mulher encontram-se de novo. O cão encontra-se entre eles. E eles são três. Um segundo filme começa: o mesmo que o primeiro, e ainda não. A raça humana passou a metáfora. Isso termina com latidos e com os gritos ...
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Nome: Godard Jean-Luc Godard continua a filmar o presente, o seu assombramento pelo passado e a sua vacilação face ao futuro. O título: "Film Socialisme"
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Para redescobrir o cinema de Godard Jean-Luc Godard volta a estar no centro da actualidade cinematográfica: para além da sua mais recente longa-metragem, "Filme Socialismo", ...

Não é um lugar-comum, mas uma evidência formal e existencial: para definirmos um filme de Jean-Luc Godard — sobretudo um filme como "Adieu au Langage" (competição) —, temos que dizer que o seu labor define um continente à parte, tecido de perguntas, dúvidas e experimentações que não pertencem a mais ninguém.

E, no entanto, não haverá obra que não esteja mais obsessivamente habitada pelos temas fracturantes dos nossos tempos — desde a decomposição dos valores humanistas clássicos até à ocupação do espaço específico do cinema pelas muitas normalizações televisivas —, conferindo-lhe uma estranha, perturbante e fascinante dimensão realista.

O que é, então, o realismo em Godard? Não, por certo, o das ilusões de espontaneidade que predominam no espaço audiovisual. Antes um realismo que nasce da noção ancestral (mais antiga que o próprio cinema) de que o mundo não se dá a ver como coisa transparente, exigindo a nossa vontade e, por certo, algum amor para o vermos, para o conseguirmos ver. Como diz Claude Monet, citado por Godard: "Não pintar o que se vê, já que não vemos nada, mas pintar o facto de não vermos".

"Adeus à Linguagem" antologia as tensões, e também os silêncios, de um grupo de personagens a lidar com a própria (im)possibilidade de prolongarem as suas relações. Nesta perspectiva, há aqui óbvios ecos narrativos e simbólicos de títulos como "Elogio do Amor" (2001), "A Nossa Música" (2004) e "Filme Socialismo" (2010), isto sem esquecermos a decisiva integração da manipulação "videográfica" das imagens e dos sons, por assim dizer, sistematizada em "História(s) do Cinema" (1994-98).

Se este é, para a história, o filme nuclear da 67ª edição do Festival de Cannes — no sentido que define a própria conjuntura de crise (entenda-se: criativa) em que somos levados a problematizar o futuro do cinema —, isso deve-se também à sua capacidade de colocar em cena uma dinâmica do presente que não exclui, antes celebra, uma distanciação plena de ternura e humor. Veja-se Roxy, o cão que pontua todo o filme como uma espécie de mensageiro incauto de uma nostalgia utópica da própria natureza — Godard é o cineasta que filma o mundo como a tragédia íntima da naturalidade que perdemos.

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publicado 00:35 - 22 maio '14

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