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Um conto moral sobre um velho e a sua pistola

Fazendo o retrato de um bizarro assaltante de bancos, "O Cavalheiro com Arma" confirma a originalidade temática e formal do realizador David Lowery. E traz-nos Robert Redford numa composição magnífica, digna de uma nomeação para um Oscar.

Um conto moral sobre um velho e a sua pistola
Sissy Spacek e Robert Redford — viver a alegria de viver
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 Um conto moral sobre um velho e a sua pistola
O Cavalheiro Com Arma Inspirado na história verídica de Forrest Tucker. Considerado o ladrão mais simpático de sempre, Forrest escapou audaciosamente da prisão de San Quentin aos 70 anos de idade, e empreendeu depois uma série de assaltos sem precedentes que baralharam as autoridades e encantaram o público. Envolvidos na perseguição estão o detetive John Hunt, que fica fascinado com o empenho de Forrest no seu ofício, ...

Decididamente, o cineasta David Lowery não tem muita sorte no mercado português. A sua longa-metragem "História de um Fantasma", um conto romântico em ambiente fantasmático, por certo um dos mais originais títulos americanos de 2017 foi directamente para DVD. Agora, o novo "The Old Man and the Gun" é lançado como "O Cavalheiro com Arma"...

Por que não respeitar a alusão do original ao clássico de Ernest Hemingway, "The Old Man and the Sea"? Será que "O Cavalheiro com Arma" é mais apelativo que seria "O Velho e a Pistola"?

É uma questão secundária (que, em qualquer caso, por razões comerciais e simbólicas, vale a pena formular). O que mais conta é o facto de estarmos perante um belo conto moral, à moda antiga, mas com uma frescura criativa contagiante.

Trata-se de evocar a história (verídica) de um velho que assalta bancos, vai preso, volta a assaltar bancos... Numa vertigem contida que, em última instância, decorre do seu gosto de viver. Ou seja: a personagem do velho Forrest Tucker é tão só um homem que passou a viver conciliado com as contradições da própria existência humana.

Lowery encena tudo isso como uma espécie de policial suspenso no tempo e nas emoções, para tal contando com a contribuição decisiva de Robert Redford no papel de Tucker — ele é perfeito na encarnação de uma alegria que subsiste, candidamente, até mesmo no pressentimento da morte. E tem a seu lado Sissy Spacek, outra presença magnífica, nostálgica, ma non troppo.

Como é sabido, Redford deu a entender que este seria o seu derradeiro trabalho como actor — e não faltaram artigos a rotular o filme como um "canto do cisne", eventualmente especulando sobre a possibilidade (verosímil) de chegar aos Oscars. O certo é que, alguns meses mais tarde, na ante-estreia americana de "The Old Man and the Sea", Redford veio dizer que talvez se tenha precipitado... Só podemos estar de acordo com ele.

Crítica de João Lopes
publicado 00:51 - 05 janeiro '19

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