Lou de Laâge e Juliette Binoche — para além dos clichés psicológicos


joao lopes
15 Abr 2016 0:33

Face a um filme tão delicado, e também tão clássico, como "A Espera", apetece perguntar: de que falamos quando falamos de cinema psicológico? A pergunta justifica-se, quanto mais não seja porque vivemos assolados pela mediocridade dramática do espaço telenovelesco, todos os dias repetindo os mesmos clichés de personagens e situações… Ora, "A Espera" é um filme atraído pelo mais primordial dos temas: qual a nossa relação com a morte?

Qualquer resumo desta primeira longa-metragem de Piero Messina (uma das revelações da nona edição da Festa do Cinema Italiano) corre o risco de dizer demasiado… ou demasiado pouco. Trata-se de um encontro insólito: a jovem Jeanne (Lou de Laâge) que vem visitar o namorado e Anne (Juliette Binoche), a mãe do namorado que resiste a dar-lhe uma notícia trágica, colocando-a — e colocando-se — na teia de uma angustiada espera.




Tudo acontece, assim, num desconcertante registo de suspense em que o facto de o espectador saber um pouco "mais" do que Jeanne instala uma ambígua cumplicidade com Anna — talvez que, afinal, o irreversível se possa combater com o silêncio. O retrato psicológico deixa de funcionar como mera aplicação de padrões pré-determinados (psicológicos, precisamente), para atrair aquilo que, afinal, está para além de qualquer padrão cognitivo.

Daí que "A Espera" seja um filme de palavras escassas e muitos silêncios, sustentados por duas actrizes de impecável precisão e também, claro, por uma mise en scène que se afasta de qualquer facilidade mais ou menos moralista. Nesta perspectiva, talvez se possa dizer que Messina refaz os caminhos de alguns autores clássicos italianos, de Luigi Comencini a Dino Risi, passando por Ettore Scola. Em termos simples, vale a pena estarmos atentos ao seu segundo filme.

+ críticas