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Um drama realmente familiar

Eis uma pequena surpresa: com rigor e sobriedade, "Blackbird - A Despedida" recupera as matrizes clássica do drama psicológico, além do mais contando com um excelente elenco, centrado na notável Susan Sarandon.

Um drama realmente familiar
Susan Sarandon e Kate Winslet: o cinema faz-se de actores e actrizes
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 Um drama realmente familiar
Blackbird - A Despedida Lily (Susan Sarandon) e Paul (Sam Neill) convocam os seus filhos adultos para um encontro na casa de praia com a intenção de lhes comunicar uma decisão. O casal planeara um fim de semana de amor com as habituais tradições de família, mas o ambiente começa a ficar tenso quando surgem problemas mal resolvidos entre Lily e as filhas Jennifer (Kate Winslet) e Anna (Mia Wasikowska). Para além das ...

Eis um filme fora de moda. Deliciosamente fora de moda, apetece dizer. Não porque seja uma obra-prima. Não porque dele se possa dizer que vem abrir um novo "continente" para as narrativas cinematográficas. Apenas porque, neste tempo de espectáculos ruidosos, esgotados na lógica de marketing que os administra, é salutar deparar com um drama serenamente clássico como "Blackbird".

Dois valores tradicionais determinam a sua gestação. O primeiro é o labor do argumento, assinado pelo dinamarquês Christian Torpe, aliás (re)adaptando o argumento, também de sua autoria, que estava na base de "Silent Heart" (2014), de Bille August. No centro dos acontecimentos está a decisão da personagem interpretada por Susan Sarandon: Lily sabe que padece de uma doença terminal e, com a assistência do marido, que é médico, decidiu pôr termo à vida — daí o subtítulo português, "A Despedida".

Daí a importância de uma segunda componente. A saber: o impecável elenco, com destaque obrigatório para a magnífica e subtil Sarandon, e ainda Kate Winslet e Mia Wasikowska, interpretando as duas filhas que, reflectindo experiências de vida muito diferentes, não sabem como lidar com o radicalismo da decisão da mãe...

Escusado será dizer que a delicadeza temática dos acontecimentos narrados não implica que se trate de organizar um debate parlamentar sobre a eutanásia. Mérito também da realização de Roger Michell, como é óbvio, que sabe encenar este drama sem ceder a simbolismos fáceis, limitando-se aos limites cénicos e cenográficos de uma família.

O que, enfim, não deixa de nos recordar que Michell possui uma assinalável versatilidade, tendo na sua filmografia objectos tão díspares como "Notting Hill" (1999), uma comédia romântica, ou "Hyde Park em Hudson" (2012), um retrato pleno de ironia de Franklin D. Roosevelt.

Crítica de João Lopes
publicado 20:02 - 28 maio '21

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