Um festival com muitas histórias
"Le Gamin au Vélo", de Jean-Pierre e Luc Dardenne: continuar a contar histórias

Cannes 2011  

Um festival com muitas histórias

Através da consagração de "A Árvore da Vida", e também das outras escolhas do palmarés, o júri soube reflectir a pluralidade do próprio festival.

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Há sempre linhas mais ou menos misteriosas que ligam os filmes que se vêem num festival de cinema. Dir-se-ia que, quanto mais não seja por serem descobertos num contexto uniforme, começam a falar entre si...

Lembremos, por exemplo:

- Cécile de France e Thomas Doret no filme dos irmãos Dardenne ("Le Gamin Au Vélo") que parecem mãe e filho mas, de facto, foram reunidos por um insólito acaso.
- Alain Cavalier e Vincent Lindon, ambos actores, o primeiro também realizador ("Pater"), simulando serem o Presidente da França e o seu primeiro-ministro.
- Brad Pitt e Sean Penn, pai e filho em épocas muito distantes, mas que Terrence Malick ("A Árvore da Vida") filma como se vivessem numa só história, tão fluida quanto indestrutível.

Que nos dizem estes filmes? Que a percepção do real é um trabalho árduo que exige uma disponibilidade (intelectual e afectiva) para passar para além das certezas "descritivas" das imagens. Ou seja: isto não é televisão.

Acima de tudo, essa exigência de superar o óbvio de qualquer representação vem de geografias e lugares muito diversos, desde os cenários assombrados da australiana Julia Leigh ("Sleeping Beauty") até aos lugares desnudados do turco Nuri Bilge Ceylan ("Once Upon a Time in Anatolia"). Vemos isso até na ligeireza aparente (oh! tão aparente!) de Nanni Moretti ("Habemus Papam"): o seu Papa angustiado é, afinal, uma expressão muito directa de uma solidão em que qualquer um de nós se pode reconhecer.

Mais uma vez, Cannes teve o mérito de integrar o máximo desses contrastes e pluralidade, do mesmo modo que o júri a soube reflectir de modo pensado e equilibrado.

Poderíamos esperar que o palmarés não falhasse algumas das experiências mais extremas que o festival proporcionou (por mim, citaria "Michael", o filme do austríaco Markus Schleinzer centrado num pedófilo que rapta uma criança). Em todo o caso, as respectivaas escolhas preservam a mensagem fulcral do certame: o cinema vive também um momento de muitas crises, mas o que não falta é imaginação para contar histórias, para continuar a contar histórias.

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publicado 00:12 - 23 maio '11

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