Crítica: EM CÂMARA LENTA  

Um marialva afetuoso e egoísta

O cinema de Fernando Lopes continua a explorar as várias tonalidades das relações humanas e dos amores. No filme "Em Câmara Lenta", há um homem que mergulha à procura das emoções que não consegue viver.

Um marialva afetuoso e egoísta
Rui Morrisson prestes a mergulhar no abismo.
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 Um marialva afetuoso e egoísta
Em Câmara Lenta Salvador conhecia Constança e Santiago. Não conhecia mas admirava, Laurence. De entre eles, Laurence conhecia Santiago. Constança não conhecia Laurence. Só Santiago conhecia Laurence, Constança e Salvador. Uma teia de relações em cada personagem talvez não coincida com a própria identidade que a ficção parece garantir. Num certo sentido, cada um vive em estado de branda amnésia: o inevitável ...
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Destaque "Em Câmara Lenta": entrevista com Rui Morrison

A sinopse do filme propõe uma relação entre quatro personagens, que se conhecem ou sabem da existência uns dos outros. Um mapa de relações, cujo ponto de partida é Santiago (Rui Morrison), o único que conhece e se relaciona com todos. Santiago é casado com Laurence (Maria João Luís), que não conhece mas sabe da existência de Salvador (João Reis), fiel amigo do marido e de Constança (Maria João Pinho) a amante que a esposa tolera. Eles, Salvador e Constança conhecem-se, mas nunca viram a legítima mulher de Santiago.

É o regresso do marialva ao cinema de Fernando Lopes, depois da adaptação do romance "O Delfim" de José Cardoso Pires, em que o realizador mergulhou nos usos e costumes do macho português, senhor da casa e da terra interpretado por Rogério Samora.

Mudam-se os tempos, muda-se o cenário, mas a figura masculina incapaz de se entregar a um só amor, continua a ser alvo do cinema de Fernando Lopes. "Em Câmara Lenta" é um filme onde o realizador propõe outro perfil de macho, menos autoritário, mais frágil, mas igualmente distante e solitário.

A personagem de Rui Morrison é um homem capaz de muitos amores, que sabe de memória as teorias de Alexandre O' Neil sobre como dar afecto às mulheres. É um macho moderno, talhado à moda antiga. Mantém um casamento de cumplicidade, uma amante que tenta forçá-lo a assumir um compromisso, um amigo que o crítica mas não interfere e que o acompanha nas noites de boémia, e carrega uma memória trágica que continua a amarrá-lo ao passado.

Mais do que a história contada, Fernando Lopes explora as divagações deste homem incapaz de se comprometer com os outros e com a vida e centrado nas suas necessidades. É uma personagem pouco simpática e que merece na melhor das hipóteses a compaixão do público. É um território arriscado para deixar uma personagem, mas Fernando Lopes já há muito se tornou um cineasta sem falsos moralismos, capaz de dar visibilidade poética a figuras difíceis sem fazer juízos de valores.

 

Crítica de Lara Marques Pereira actualizado às 01:03 - 13 março '12
publicado 21:14 - 09 março '12

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