Um realismo quase fantástico
Uma crónica social da Argentina, um filme com ressonâncias universais

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Um realismo quase fantástico

Felizmente, o cinema de Lucrecia Martel continua a encontrar lugar no mercado português — chega, agora, "A Mulher sem Cabeça", a sua terceira longa-metragem

Desde "O Pântano" (2001), passando por "A Rapariga Santa" (2004), o cinema de Lucrecia Martel faz-se de duas componentes fundamentais: um ambiente de segurança e conforto em que a classe dos senhores se sobrepõe claramente ao dia a dia dos criados; uma sucessão de acontecimentos, muitos deles de desarmante banalidade, que vão abalando todas a ilusória estabilidade desse mundo.

"A Mulher sem Cabeça", um dos grandes acontecimentos do Festival de Cannes de 2008, prolonga o sentido metódico e obsessivo da sua mise en scène. Com um complemento dramático que está longe de ser indiferente — assim, num certo sentido, partilhamos do estado "alucinado" da protagonista que não sabe se bateu em alguma coisa com o seu automóvel ou se terá mesmo atropelado um ser humano...

No fundo, Lucrecia Martel trabalha a partir de situações que podiam encaixar em qualquer telenovela (e convém lembrar que, vindo ela da América do Sul, mais concretamente da Argentina, se move num espaço mediático em que esse é um formato também dominante na vida cultural das sociedades). O certo é que, subtilmente, vai recusando todos os clichés dramáticos e moralistas das linguagens televisivas dominantes para propor uma visão capaz de expor as máscaras sociais — e não apenas no seu funcionamento colectivo, mas também através dos efeitos que desencadeiam no comportamento individual.

Este é, afinal, um realismo habitado por uma estranheza visceral, quase fantástica — daí que o sentido regional do cinema de Lucrecia Martel (até agora, ela filmou sempre na região de Salta, de onde é natural) lhe confira também um eco eminentemente universal.



A MULHER SEM CABEÇA - LA MUJER SIN CABEZA

De
Lucrécia Martel
com César Bordón, Cláudia Cantero, Maria Onetto
Drama
87m
M/16
ARG, ESP, FRA, ITA
2008


Ouça a opinião de João Lopes


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