Uma actriz é uma actriz é uma actriz
Juliette Binoche e Kristen Stewart (ao centro, desfocada): contrastes no feminino

Cannes 2014: SILS MARIA, Olivier ASSAYAS  

Uma actriz é uma actriz é uma actriz

Olivier Assayas, discípulo de Renoir, gosta de explorar os elementos teatrais das relações humanas. Assim volta a acontecer no excelente "Sils Maria", com Juliette Binoche, Kristen Stewart e Chloe Grace Moretz.

Trailer/Cartaz/Sinopse:
 Uma actriz é uma actriz é uma actriz
As Nuvens de Sils Maria Maria Enders (Juliette Binoche) é uma actriz que aos dezoito anos teve sucesso na peça "Cobra de Maloja". Vinte anos mais tarde, propõem-lhe entrar de novo nessa peça, mas, desta vez, desempenhando um outro papel. O convite deixa-a perturbada porque percebe que o papel que a tornou famosa é agora atribuído a uma jovem estrela de Hollywood (Chloë Grace Moretz). Insegura, Enders viaja até os Alpes ...
Média Cinemax:
3.417

O mais surpreendente no novo filme do francês Olivier Assayas, "Sils Maria", decorre dos calculados contrastes do seu trio feminino. Assim, Juliette Binoche (símbolo por excelência do cinema francês) interpreta uma actriz, de nome Maria, que enfrenta a possibilidade de revisitar o texto teatral que, há mais de vinte anos, lhe deu fama, agora noutra personagem; Kristen Stewart (vedeta da saga "Twilight") é Valentine, a sua fiel assistente; enfim, Chloe Grace Moretz ("A Invenção de Hugo", "Kick-Ass") surge como outra actriz, Jo Ann, que poderá retomar o papel que já foi de Maria...

Em grande parte rodado nos esplendorosos cenários de Sils Maria, na Suíça, esta é uma viagem que tem menos a ver com a exploração dos bastidores do teatro e mais com um labirinto de oposições e complementaridades — somos levados a descobrir o modo como a teatralidade está presente em todos os momentos das relações humanas, podendo mesmo funcionar como inesperado revelador. Observe-se, em particular, o facto de Valentine ajudar Maria a ensaiar o texto, instalando uma ambígua e envolvente erotização.

Num certo sentido, Assayas vem mostrar que o teatro é algo que não se opõe à vida, antes a atravessa, contamina e reinventa. Um pouco como no célebre verso de Gertrud Stein — a rose is a rose is a rose —, poderemos dizer que as actrizes/personagens de Assayas são seres que, através da fragilidade da ficção, podem encontrar algumas verdades menos óbvias da sua própria existência, sem deixarem de pertencer ao mundo mágico do fingimento.

Mantendo-se fiel a um ideário teatral/cinematográfico que remete o seu trabalho para a herança tutelar de Jean Renoir (1894-1979), Assayas assina, assim, um filme de sofisticada elegância narrativa que não está empenhado em esgotar os mistérios que coloca em cena — trata-se mesmo de inventariar situações que talvez não tenham uma cabal "explicação". Em qualquer caso, depois de "Depois de Maio" (sobre os acontecimentos de Maio 68), "Sils Maria" é a prova muito real do lugar central que Assayas ocupa na actual produção francesa.

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publicado 01:57 - 24 maio '14

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