Uma arqueologia das relações humanas
Seidi Haarla e Yuri Borisov: uma finlandesa e um russo enredados nas incertezas do destino

CANNES 2021  

Uma arqueologia das relações humanas

O realizador finlandês Juho Kuosmanen foi à Rússia filmar a história de uma mulher à procura de memórias arqueológicas: "Compartimento nº 6" é um conto moral que está na competição de Cannes.

Trailer/Cartaz/Sinopse:
 Uma arqueologia das relações humanas
Hytti nro 6 (Compartment No.6) Uma jovem finlandesa escapa de um enigmático caso de amor em Moscovo ao embarcar num comboio em direção ao porto de Murmansk. Forçada a partilhar a longa viagem e um minúsculo vagão-cama com um mineiro russo, o encontro inesperado leva os ocupantes do Compartimento no. 6 a enfrentar a verdade sobre o seu próprio anseio por relações humanas.

Conhecíamos o finlandês Juho Kuosmanen de "O Dia Mais Feliz na Vida de Olli Mäki" (2016), retrato de um pugilista do seu país que combinava a curiosidade psicológica com uma utilização algo formalista da fotografia a preto e branco. Ele surge agora na secção competitiva de Cannes com "Compartiment nº 6", filme que tem a vantagem de se abrir à complexidade psicológica das suas personagens principais, em particular Laura (Seidi Haarla), a finlandesa que empreende uma longa viagem de comboio para conhecer os tesouros arqueológicos de Murmansk, no noroeste da Rússia.

Em boa verdade, o filme pode definir-se como uma crónica romanesca dessa viagem, em grande parte vivida no compartimento/cama que o título refere. Acontece que Laura tem que partilhar o espaço com Ljoha (Yuri Borisov), um russo que vai para o mesmo destino, misturando o seu desencanto pelo trabalho que vai assumir com doses pouco moderadas de álcool... Ou como as relações humanas envolvem sempre um misto de consciência prática e arbitrariedade existencial.

"Compartiment nº 6" ilustra um dispositivo muito na moda, não poucas vezes limitado por estereótipos dramáticos e morais. A saber: a personagem que se desloca para um destino precário, na sua odisseia sendo compelida a reavaliar toda a sua história pessoal... Felizmente, neste caso, Kuosmanen tem o bom senso de preferir as singularidades da própria viagem a qualquer sobrecarga "simbólica", produzindo um conto moral sempre em aberto, incerta e envolvente — sem esquecer a fundamental contribuição dos dois intérpretes principais.

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publicado 00:37 - 11 julho '21

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