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Uma aventura entre a vida e a morte

Estreado apenas nos circuitos virtuais, "Soul - Uma Aventura com Alma" é a proposta natalícia da Disney/Pixar: uma aventura musical cujo herói tem de lutar arduamente entre a vida e a morte...

Uma aventura entre a vida e a morte
Joe, o professor que é um brilhante pianista de jazz: a voz é de Jamie Foxx
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A tradição já não é o que era?... Talvez sim... Talvez não... Uma coisa é certa: o tradicional "filme de Natal" com chancela dos estúdios Disney — "Soul - Uma Aventura com Alma" — não está nas salas escuras, mas numa plataforma de streaming (Disney+). A culpa é da pandemia que, de uma maneira ou de outra, está a obrigar aos mais variados ajustes em muitas actividades humanas, incluindo a difusão e o consumo dos filmes.

É pena, claro. Até porque nalguns casos tem havido uma tentativa de compromisso entre o "material" e o "virtual". Seja como for, "Soul" ilustra de forma exemplar uma lógica de desenvolvimento dos estúdios do Rato Mickey que, em parte muito significativa, tem dependido da Pixar, o estúdio digital que criou "Toy Story" em 1995, tendo sido adquirido pela Disney em 2006.

Com assinatura de Pete Docter, o realizador de "Monstros e Companhia" (2001), "Up - Altamente" (2009) e "Divertida-Mente" (2015), "Soul" aplica uma premissa fantástica que o aproxima deste último título. A saber: a figura central, Joe (com voz de Jamie Foxx), professor de música que nunca pôde colocar em prática o seu talento de pianista de jazz, tem de lutar arduamente para evitar que a sua morte seja consumada no além... de modo a poder voltar à Terra...


A complexidade temática e simbólica de tal aventura — literalmente entre a vida e a morte — não pode deixar de evocar algumas experiências do cinema clássico, a começar, claro, pelo maravilhoso "Um Caso de Vida ou Morte" (1946), da dupla da produção britânica Michael Powell/Emeric Pressburger. O registo é, obviamente, diferente, mas a mesma ambivalência dramática serve de motor a toda a história.

Algo errático na sua estrutura narrativa, nem sempre valorizando a duração emocional das cenas, "Soul" não deixa de possuir a vibração contagiante de uma saga de amor pela música, com a particularidade de a excelente banda sonora ter assinatura da mais inesperada das duplas: Trent Reznor/Atticus Ross (os dois magos dos Nine Inch Nails, colaboradores regulares de David Fincher). Sem esquecer o requinte das vozes originais, com inevitável destaque para a pequenina "22", a alma que aguarda a sua viagem para a Terra, interpretada por Tina Fey.

Crítica de João Lopes
publicado 19:04 - 24 dezembro '20

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