Uma fábula húngara
"Jupiter's Moon" — o universo metafórico de Kornél Mundruczó

Cannes 2017  

Uma fábula húngara

O filme húngaro em competição é um dos que lida com a actual crise europeia dos refugiados: ainda que em tom menor, "Jupiter's Moon" confirma as singularidades do universo do seu realizador, Kornél Mundruczó.

Trailer/Cartaz/Sinopse:
 Uma fábula húngara
Jupiter Holdja (Jupiter`s Moon) Aryan é um jovem migrante baleado enquanto tentava cruzar a fronteira ilegalmente. Sob o choque da sua lesão, descobre que tem o poder de levitar.
Média Cinemax:
2.833

Para muitos, a revelação do húngaro Kornél Mundruczó ocorreu em Cannes, em 2010, com o estranho, perturbante e poético "The Frankenstein Project". Aqui voltou com "Deus Branco" (2014) e o menos que se pode dizer é que o seu universo se faz da estranha confluência de um realismo muito cru com um apelo simbólico que, à falta de melhor, classificaremos como típico dos artifícios da fábula.

"Jupiter's Moon" aí está, de novo na competição do festival, como confirmação exemplar das suas singularidades. Desta vez, Mundruczó define a sua narrativa a partir de um pano de fundo carregado de dramatismo. Dito de outro modo: este é mais um filme do festival marcado pela crise dos refugiados (e, como é evidente, aguardamos com expectativa o que Michael Haneke fará com tal tema, em "Happy End"). Com um pequeno e insólito detalhe: Aryaan (Zsombor Jéger), o refugiado que está no centro da história, tem o poder de levitaçao, parecendo ser uma figura angelical enviada pelos céus...

A aposta de Mundruczó suscita imenso respeito. De facto, perante uma temática tantas vezes assombrada por clichés mais ou menos moralistas, trabalhar a partir de um dispositivo tao assumidamente artificioso envolve um desafio peculiar que, naturalmente, se transfere para o próprio olhar do espectador. Resta saber o que fazer com tal risco...

Sustentado por recursos técnicos obviamente sofisticados, dir-se-ia que o filme hesita entre o seu apelo metafórico e o consumar de uma intriga "policial" mais ou menos esquemática que, por vezes, parece tomar conta de personagens e situações — em alguns momentos, sentimos mesmo que a exibição de tais recursos se sobrepõe às necessidades dramatúrgicas do projecto. Fica, de qualquer modo, uma viagem desconcertante pelos céus da Hungria.

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publicado 17:04 - 19 maio '17

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