Uma ficção que é um documento
Behnaz Jafari e Jafar Panahi — o Irão, aqui e agora

Cannes 2018  

Uma ficção que é um documento

Impedido de se deslocar do Irão a França, o cineasta Jafar Panahi está presente na secção competitiva de Cannes com "3 Faces" — mais um notável exemplo da sua capacidade de discutir a fronteira tradicional entre ficção e documentário.

Fosse qual fosse o "conteúdo" do filme do iraniano Jafar Panahi incluído na secção competitiva de Cannes, a sua passagem seria sempre um acontecimento carregado de emoção e simbolismo. Isto porque Panahi continua a fazer filmes "ilegais" (foi proibido de filmar durante vinte anos), não lhe tendo sido concedida autorização para estar presente no festival — na projecção oficial de "3 Faces" recebeu uma grande salva de palmas, sendo a sua "presença" assinalada por uma cadeira vazia.

Seria precipitado considerar que "3 Faces" é um comentário directo à própria condição que Panahi está a viver (depois de ter sido cumprido seis anos de prisão domiciliária). Mas é um facto que o seu filme, pequeno grande prodígio de subtileza, emoção e inteligência, o coloca como personagem de cineasta, tentando ajudar uma amiga actriz a desvendar um misterioso video. Nesse video, uma jovem desconhecida dá conta, em tom absolutamente trágico, do facto de não ter autorização familiar para estudar artes dramáticas...
 

Como muitas vezes acontece no trabalho de Panahi, "3 Faces" apresenta um tom ambíguo de ficção documental em que, em boa verdade, as personagens centrais se apresentam como "duplos" de si próprios: Panahi e a actriz Behnaz Jafari usam os seus nomes e, como tal, são reconhecidos pelas outras personagens. Daí que a sua demanda — quem é a rapariga que enviou o video? — se transfigure em enigma cinematográfico: o video será genuíno, ou a sua violência é forjada?

Tal como "Taxi" (2011), o filme em que Panahi era um motorista cujo veículo funcionava como uma espécie de espaço confessional dos passageiros, "3 Faces" apresenta-se como montra da pluralidade do povo iraniano, com diferenças que vão desde a gestão das suas casas até à língua que usam (a acção passa-se mesmo numa zona em que muitos habitantes se exprimem em turco). Será, em última instância, uma crónica do exílio interior do próprio realizador — e também da liberdade do seu pensamento.

por
publicado 00:03 - 14 maio '18

Recomendamos: Veja mais Artigos de Cannes 2018