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Uma parábola com bonequinhos animados

Prolongando a experiência de "O Fantástico Sr. Raposo", Wes Anderson encena muitos bonequinhos animados para construir uma tocante parábola: "Ilha dos Cães" é uma proeza técnica e expressiva, contando com um notável lote de actores.

Uma parábola com bonequinhos animados
Os cães de Wes Anderson — revalorizando a técnica de "stop motion"
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 Uma parábola com bonequinhos animados
Ilha dos Câes "Ilha dos Cães" conta a história de Atari, um miúdo de 12 anos sob a tutela de Kobayashi, o corrupto presidente da câmara. Quando, por decreto executivo, todos os animais de estimação caninos da cidade de Megasaki são exilados para uma vasta lixeira chamada Ilha do Lixo, Atari parte sozinho num turboélice miniatura e atravessa o rio à procura do seu cão de guarda, Spots. Nessa ilha , com a ajuda ...

Mesmo não esquecendo as muitas maravilhas de animação que têm surgido nas últimas décadas — desde "O Rei Leão" até ao universo dos Mínimos —, importa reconhecer que a percepção corrente desse domínio de produção é francamente redutora. Desde logo, porque tende a confundir o seu desenvolvimento com a proliferação de técnicas digitais; depois, porque o seu alcance surge muitas vezes reduzido a coordenadas infantis ou juvenis.

"Ilha dos Cães", de Wes Anderson, pode ser definido como um objecto capaz de superar tal visão. Em primeiro lugar, porque utiliza a técnica dos bonequinhos animados [ stop motion ], obviamente não inédita, mas francamente menos frequente no mercado; mais do que isso, porque a sua complexidade temática, a par do seu negrume amocional, visa, sobretudo, um público adulto — em qualquer caso, sem qualquer dependência de componentes infantis.

É a segunda vez que Anderson utiliza esta técnica (lembremos a experiência anterior de "O Fantástico Sr. Raposo", produção de 2009 infelizmente nunca lançada nas salas portuguesas). E o mínimo que se pode dizer é que ele a encara como um instrumento de trabalho capaz de gerar um universo cúmplice de outros que encontramos nos seus filmes "normais", com destaque para o brilhante "Grand Budapest Hotel" (2014).

De que se trata, então? Pois bem, de construir uma parábola sobre a repressão e o desejo de libertação, localizada num Japão mais ou menos futurista. A ilha a que o título se refere não tem nada de paradisíaco. É mesmo um lugar infernal utilizado para um fim monstruoso: uma lixeira para onde são enviados os cães, considerados fonte de muitos perigos e doenças (os gatos, pelo contrário, são tratados como animais superiores).

Anderson constrói o seu filme num tom de epopeia demonstrativa, como quem faz um ensaio sobre a maldade humana e a defesa da dignidade dos animais. Para além do rigor de planificação e elaboração dramática, conta com um elenco de luxo que inclui, entre muitos outros, Bryan Cranston, Edward Norton, Bill Murray, Greta Gerwig e Scarlett Johansson... Ou como se prova que interpretar um cão pode ser um teste exemplar para o talento de qualquer actor ou actriz.

Crítica de João Lopes actualizado às 23:53 - 27 abril '18
publicado 23:39 - 27 abril '18

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