Uma psicanálise religiosa
Nanni Moretti e Michel Piccoli: um cinema de pura inteligência narrativa

"Habemus Papam", Nanni Moretti  

Uma psicanálise religiosa

Nanni Moretti ganhou a Palma de Ouro em 2001, com "O Quarto do Filho" — está de volta este ano com "Habemus Papam", uma parábola moral em cenários do Vaticano.

Trailer/Cartaz/Sinopse:
 Uma psicanálise religiosa
Habemus Papam - Temos Papa Após a morte do Papa, o Conclave reúne-se a eleger o seu sucessor, mas até que se veja fumo branco são necessárias várias votações. O novo cardinal eleito não parece apto a suportar o peso das responsabilidades a que o lugar o obriga. Angustiado, deprimido e com receio de falhar, a solução mais evidente parecer ser a de arranjar um terapeuta para este novo Papa…

Provavelmente, a maioria dos espectadores de Cannes esperaria de "Habemus Papam" um retrato sarcástico e implacável do Vaticano, prolongando a imagem de enfant terrible do cinema italiano que Nanni Moretti (mesmo com os seus 57 anos) continua a ter. Pois bem, nada disso: este é um filme em que o humor e a ironia estão ao servico de uma inesperada e subtil parábola moral.

"Habemus Papam" é, afinal, uma crónica das atribulacoes internas desencadeadas pela escolha de um novo Papa. Mais exactamente, o cardeal magnificamente interpretado por Michel Piccoli é eleito Papa e... nao sabe como lidar com isso. Esta é, por isso, acima de tudo, uma história psicanalitica: como encontrar as palavras que digam aquilo em que cada um reconhece a sua identidade?

E a classificação de psicanalitica nao tem nada de especulativo. Isto porque a segunda personagem fundamental de "Habemus Papam"é um psicanalista que o Vaticano convoca para tentar ajudar o novo Papa a enfrentar o seu pânico. Para que o sentido crítico de tal questionamento seja inequívoco, essa é a personagem que Moretti escolheu para si próprio.

Nao há muitos cineastas capazes de trabalhar com esta inteligência narrativa e esta agilidade criativa. No fundo, Moretti continua a ser um espectador atento e exigente da sociedade italiana, mas recusa encená-la atraves de estereótipos. No caso de "Habemus Papam", a discreta invencão do seu filme envolve um pouco de tudo, desde um jogo de voleibol para cardeais (organizado pelo psicanalista) ate ao fascínio do Papa pelo teatro de Checkov! Tudo com a benção do cinema.

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publicado 21:02 - 13 maio '11

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