Estreia  

Uma tragédia suspensa em cenários de Taiwan

Entre as recentes novidades do "streaming", "A Sun", de Chung Mong-hong, é uma das mais motivadoras: um drama familiar que nos faz redescobrir a criatividade do cinema de Taiwan.

Uma tragédia suspensa em cenários de Taiwan
Yi-wen Chen e Chien-Ho Wu: como funcionam os laços pai/filho?
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Hou Hsiao-hsien, Tsai Ming-liang, Edward Yang ou, sobretudo, Ang Lee — eis alguns dos nomes que, ao longo das últimas décadas, foram impondo o cinema de Taiwan como uma referência importante nos circuitos internacionais, aliás a par de algumas outras cinematografias asiáticas. A eles podemos agora acrescentar Chung Mong-hong: na tripla qualidade de realizador, argumentista e director de fotografia, ele surge agora com "A Sun" [Netflix], um elaborado drama familiar que possui a qualidade de saber tratar o particular sem perder de vista o seu possível impacto universal.

É pena que o título internacional — à letra: "Um Sol" — não tenha sido traduzido. Segundo informações que têm acompanhado o lançamento do filme, trata-se de uma redução simbólica do original (qualquer coisa como "A luz do sol ilumina tudo"), mas é um facto que a sua escolha foi motivada pela semelhança de sonoridade com "A Son"/"Um filho". Este é, de facto, um filme centrado num filho, A-Ho (Chien-Ho Wu), condenado a três anos de prisão na sequência de um acto violento em que participou...
 

A-Wen (Yi-wen Chen), o pai de A-Ho, é um instrutor de uma escola de condução que vive a sua existência assombrada pela delinquência do filho, a ponto de dizer que t em apenas "um filho", referindo-se a A-Hao (Greg Han Su), irmão mais velho de A-Ho que se tem mantido um estudante exemplar... O certo é que neste labirinto de leis familiares e sociais, nada acontece de forma linear...

Em boa verdade, o filme de Chung Mong-hong está longe de se satisfazer com um banal esquema policial, funcionando antes como uma viagem através de um sistema de relações que ameaça desfazer-se. "A Sun" consegue isso preservando um realismo muito seco que não exclui, antes pelo contrário, as convulsões emocionais com que cada personagem avalia a sua posição no interior desse mesmo sistema. Dir-se-ia uma tragédia suspensa, de subtil "suspense", sobre os laços colectivos e a solidão individual — em resumo, uma bela descoberta.

Crítica de João Lopes
publicado 21:20 - 13 março '21

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