Uma utopia em forma de prisão

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Uma utopia em forma de prisão

Um conto de ficção científica ou um retrato ambivalente do nosso mundo contemporâneo? "Canino" é o insólito e perturbante filme grego que ganhou o "Certain Regard" de Cannes/2009.

Não é todos os dias que chega ao mercado português um filme grego — para mais um filme distinguido com um prémio tão importante como o da secção "Un Certain Regard", na edição de 2009 do Festival de Cannes. O certo é que "Canino", de Giorgios Lanthimos, não se esgota nesse prestigioso cartão de visita — estamos perante uma variação, insólita e perturbante, do conceito de utopia.

Qualquer imaginação utópica pressupõe alguma forma de liberdade ou libertação — trata-se de inventar um mundo mais livre. Ora, em "Canino", as personagens dos filhos vivem literalmente enclausurados, numa espécie de claustrofobia "paradisíaca", mas não manifestam qualquer espírito de revolta: a prisão é vivida por eles como um modelo absoluto de verdade.

"Canino" coloca, assim, em cena, um bizarro delírio proteccionista do próprio conceito de educação: os pais daqueles jovens convenceram-nos que o mundo exterior é feio, perverso e, em última análise, uma coisa a repelir. Resta saber como é possível sustentar a natureza humana no interior deste dispositivo asfixiante...

O filme possui algo de conto cruel de ficção científica, como se se tratasse de observar um futuro enlouquecido pelo seu próprio desejo de ordem. Ao mesmo tempo, porém, o uso de elementos visuais — em particular na cenografia e no guarda-roupa — que pertencem ao nosso presente dá origem a um verdadeiro curto-circuito conceptual: tudo aquilo poderia estar a acontecer... agora!

Frio, austero e minimalista, "Canino" existe como uma máquina tecida de coisas concretas e impulsos abstractos: é uma visão paradoxalmente realista da dificuldade inerente a qualquer relação humana — afinal, de que falamos quando falamos do factor humano?


 


Poster de «Canino»

CANINO

Um pai, uma mãe e três filhos adolescentes vivem numa casa cercada por uma vedação. Nenhum dos filhos atravessou alguma vez aquele espaço e todo o conhecimento que têm da vida foi-lhes transmitido pelos pais, que empregam todo o tipo de embustes para suavizar o que ambos consideram ser prejudicial para a sua educação.

De Giorgios Lanthimos com Christos Stergioglou, Mary Tsoni, Michele Valley; Drama; 94m;
M/12; GRE; 2009

>Ouça a crítica de João Lopes

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