Uma viagem interior

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Uma viagem interior

Cinema francês ligado à grande tradição melodramática. Ou uma história do quotiano que se transforma num inesperado exercício de introspecção

Junto de muitos sectores do público cinematográfico, o cinema francês é muito mal visto. Antes do mais, em sentido literal: o número de títulos franceses que chega ao mercado é relativamente escasso, sobretudo tendo em conta que estamos perante uma das maiores e mais activas cinematografias da Europa. Depois, por razões de preconceito: por efeito de muitas visões simplistas (algumas delas, há que reconhecê-lo, provenientes da própria imprensa), o cinema francês surge descrito (?) como um domínio "literário", com histórias repetidas de uma classe média mais ou menos intelectual... Isto, repare-se, a propósito de uma cinematografia que se distingue por uma salutar diversidade que vai desde o intimismo de Philippe Garrel ao entertainment de "Astérix", dos melodramas de Chabrol aos policiais que Luc Besson produz, antes do mais, para as salas americanas...

Enfim, não é fácil contrariar tais visões. Sobretudo se não se tiver a consciência de que os franceses continuam a ter também uma produção média que se alimenta, de forma mais ou menos ágil, da grande tradição melodramática que integra os nomes de mestres como Jean Renoir (1894-1979) ou Max Ophuls (1902-1957).

Nessa área, "Dois Dias para Esquecer" está longe de ser um grande feito. Mas é um filme que preserva um sentido crítico em relação ao quotidiano que o torna capaz de dar conta de algumas transformações sociais, familiares e afectivas.

Centrado na inesperada crise de um "homem-de-sucesso", o filme de Jean Becker transforma-se num processo de desmontagem da vida interior da sua personagem central. É um jogo que envolve, de uma só vez, as aparências sociais e os valores humanos — por isso, este é também um cinema em que a direcção de actores continua a ser um elemento fulcral: não por acaso, Albert Dupontel, actor principal, é o trunfo maior de "Dois Dias para Esquecer".




DOIS DIAS PARA ESQUECER - DEUX JOURS A TUER

De
Jean Becker
Com Réali Marie-Josée Croze, Pierre Vaneck
Drama
85m
M/12
França
20008                          
          
                
Ouça a crítica de João Lopes




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