Veneza, dia 3: a juventude portuguesa
Uma média-metragem "com um lado de adolescência gótica e uma base de comédia popular"

Veneza 2011  

Veneza, dia 3: a juventude portuguesa

Entrevista com Gabriel Abrantes sobre "Palácios de Pena", realizado em parceria com Daniel Schmidt, e apresentado na secção paralela Horizonte do festival de Veneza.

A herança cultural de opressão em Portugal, é o tema de um dos filmes portugueses que marca presença no Festival de Cinema de Veneza.

"Palácios de Pena" foi realizado por Daniel Schmidt e Gabriel Abrantes, a mesma dupla que no ano passado conquistou um Leopardo de Ouro,no ferstival de Locarno, com a curta-metragem 'A History of Mutual Respect'.

Gabriel Abrantes, nascido nos Estados Unidos, a residir e trabalhar em Portugal, aceitou responder a algumas questões para apresentar 'Palácio de Pena', integrado na secção paralela Horizonte.

De que trata o filme "Palácios de pena - The Last Generation of Portugal"?

Gabriel Abrantes: O filme é sobre um medo culturalmente herdado em Portugal, com ligações políticas e sociais desde o tempo da inquisição e do fascismo. A história gira em torno de duas portuguesas adolescentes de classe média-alta, que justapõem a identidade da amizade que mantêm com um tribunal de mouros homossexuais condenados a arder na fogueira. A avó doente dá-lhes a consciência da sua herança ao descrever um sonho em que ela é juíza na Inquisição. O sentimento de culpa das duas raparigas, e da avó, é agravado pela relação amorosa que estabelecem entre si, e com a família. O amor das duas e o que representam é violentamente oprimido pela ignorância. É uma ficção, mas o elenco é composto por actores não profissionais, que têm algumas semelhanças com as personagens que representam.

O filme está incluído na secção Horizontes do festival de Veneza, que é reservada a filmes que procuram novas abordagens no panorama do cinema contemporâneo. É importante ser reconhecido pelo trabalho mais alternativo no cinema?

Eu e o Daniel Schmidt, assim como toda a gente na Zé dos Bois (ZDB), que produz o filme comigo, ficámos muito satisfeitos por estar incluídos nesta secção em Veneza, que tem realizadores muito fortes. De qualquer forma gostava de ser entendido como um produtor cultural, mais do que um cineasta alternativo.

Continua a querer ser um cineasta radical?

Acredito que uma mente aberta, vontade e energia para experimentar, e uma forte motivação moral são muito importantes para o meu trabalho. Espero continuar a trabalhar desta forma.

"Palácios de Pena" é um filme radical? Em que sentido?

Acho que todos os filmes que fiz até agora de uma forma ou de outra são estudos do que está para vir. Ainda estamos a estudar como é possível trabalhar com o cinema enquanto manifestação popular e ter algum impacto ou função no mundo. O filme "Palácios de Pena" funciona de um modo muito particular, juntando duas tonalidades contraditórias, um lado de adolescência gótica e uma base de comédia popular. Por entre as proclamações de paralisia ética das personagens, há muitas piadas que vão buscar referência ao cinema que poderia facilmente estar na secção de comédia de um vídeo clube. É um contributo na construção de uma cultura popular que de alguma forma possa ter impacto na formação de uma nova consciência sobre quem somos

Tal como nos outros trabalhos anteriores, o filme não foi subsidiado. Como é que foi financiado?

O filme foi financiado pelo Lux/Frágil/EDP, através da exposição O dia pela Noite, também pelo IndieLisboa e pela Mutual Respect, uma produtora que comecei no ano passado com a ZDB. Foi rodado em super-16mm, com uma equipa de 20 pessoas, entre as quais 18 actores. Demorou dois anos a ficar pronto. Acho que os custos do filme não fazem justiça ao resultado final. Estamos a trabalhar num regime de prestação de favores, sorte e actos de boa vontade por parte de quem acreditou no projecto, e uma crença cega de que o cinema vale este esforço enorme.

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